Marionetas de São Lourenço

1975
-
1990
Companhia

Biografia

O grupo Marionetas de São Lourenço nasceu em 1975, embora tivesse já nessa altura uma história de dois anos sob o nome Companhia de Opera Buffa. Os primeiros passos foram dados nas instalações da escola de arte Ar.Co. no Largo de São Miguel em Lisboa, onde a companhia chegou a apresentar diversos espetáculos. Inicialmente com o objetivo de recuperar o reportório tradicional de teatro para marionetas é depois da revolução de 1974, que se fixa no propósito de itinerar por diversas zonas do país, adotando então definitivamente o nome de Marionetas de São Lourenço e participando nalgumas campanhas de dinamização cultural do MFA.

Objeto fulcral para a componente itinerante era a carroça-teatro, facilmente reconhecida pelas populações das zonas rurais que tinham ainda em memória trupes de saltimbancos e vendedores ambulantes.  Não obstante essa familiaridade, a carroça-teatro operava também num âmbito da espetacularidade e surpresa: daí saíam histórias, marionetas e músicos que espoletavam nas populações reações ora de afeição, ora de rejeição, mas cuja proximidade se refletia na forma como, por não terem o palco como forma de afastamento, incorporavam a profunda humanidade das marionetas. Esses momentos de reunião da comunidade permitiam o deflagrar de memórias coletivas. A esse respeito, afirma Helena Vaz:

“Este Grupo de Marionetas entende pela dita descentralização, o acto de mostrar que existe um património cultural português que pode ser usado, e mostrar ao público, que nem sabe que ele existe e portanto não sabe que lhe pertence, uma forma de ‘lê-lo’, tal como se ensina a um esfomeado o modo de abrir uma lata de conserva.”¹

A formação artística dos três principais mentores da companhia tornou este projeto um exemplo único no teatro de marionetas em Portugal. Helena Vaz, pintora de formação, trabalhava na construção de marionetas e na encenação dos espectáculos. tendo obtido em 1976 e 1977 uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para se dedicar “ao estudo de formas arcaicas de contar histórias o que abrangia o estudo da maquinaria de cena, encenação, cenários e composição teatral de figuras.”² José Alberto Gil era músico e trabalhava como compositor, autor dos textos e percussionista. Fernando Serafim era tenor e assumia o papel de cicerone-cantor e mestre de cerimónias. Para além destes elementos centrais, juntam-se outros nomes, como Teresa Gata, manipuladora de marionetas, ou Luís Vieira, mais tarde fundador d’ A Tarumba. O grupo atuava acompanhado de uma orquestra de câmara e de solistas.

O reportório privilegiou maioritariamente teatro português, desde peças inspiradas no cancioneiro tradicional, como “O Conde da Alemanha”, “Gerinaldo, o Atrevido” e “Romance de Dona Mariana” a Gil Vicente – “O Pranto de Maria Parda” e “Lá nas Traseiras do Mundo” – assim como António José da Silva -“A vida do Grande Dom Quixote de La Mancha” e “Os Encantos de Medeia”

As características de encenação do espetáculo tornaram-se uma marca distintiva da companhia. A manipulação à vista era feita com o manipulador totalmente vestido de preto por trás do corpo da marioneta, emprestando os seus movimentos ao corpo desta, enquanto a pesada cabeça de barro ficava junto ao peito, presa ao pescoço do actor. Os elementos cénicos usados eram minimalistas, dando-se primazia a questões sonoras, sendo para isso utilizadas máquinas de cena usuais no teatro barroco reproduzindo sons da natureza (como o vento ou os trovões) ou mecanismos de movimento (por exemplo para simular a deslocação das nuvens), tal como Nicola Sabbatini as tinha inventado no século XVII, no seu tratado Pratica di Fabricar Scene e Machine ne’Teatri.

A afirmação da companhia no panorama cultural português foi-se revelando, tendo estabelecido um contrato-programa com a televisão pública que contribuiu para a disseminação do seu trabalho entre um público alargado, ao passo que internacionalmente viu ser atribuído, em 1977, um prémio da RAI ao realizador Jorge Listopad pela filmagem do espetáculo “O Conde da Alemanha”.

Em 1984 a companhia apresentou na Gulbenkian a exposição dedicada às marionetas de António José da Silva, tendo participado nos encontros Acarte em 1989 com um espectáculo no anfiteatro da Gulbenkian com a carroça-teatro. Em 1987 encena a peça  “Barnum”, de Solveig Nordlund.

Em 1987, faz nascer o Museu da Marioneta no Largo Rodrigues Freitas, em Lisboa. Aí, em condições de extrema precaridade, desenvolve um programa dedicado a visitas escolares assim como continua com a apresentação de algumas das suas peças. Parte da sua coleção transita posteriormente para o atual Museu da Marioneta, sob tutela da EGEAC – Cultura em Lisboa.

As Marionetas de São Lourenço cessaram a sua atividade no início da década de 1990, com a apresentação de espectáculos de forma cada vez mais esporádica.

Referências

  1. Marionetas de São Lourenço, “Maria Parda, Farsa Musical”, programa do espetáculo apresentado no Ar.Co, Lisboa, 1978
  2. Vaz, Helena, “Exposição espectáculo sobre a obra de António José da Silva”, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1984