Missão
POP O Portal de acessibilidade à Ópera Portuguesa
É com uma emoção especial que vejo este portal abrir-se, para o passado, remoto e recente, mas também para o presente e para o futuro, um portal que parte de uma grande vontade de partilha e tornar conhecido junto do público em geral, os criadores da nossa ópera, da nossa identidade operática e da sua obra, mas também dos bravos que se aventuraram em compor na bela e nobre língua portuguesa, tantas vezes lutando contra o estigma alimentado durante séculos que impedia a composição e representação de ópera em língua portuguesa, mesmo que fosse composta por compositores portugueses e partir de literatura portuguesa, no principal teatro português¹.
É lindo de se ver como as novas gerações de compositores abraçam a língua portuguesa na sua produção operática, sem complexos, como ferramenta de expressidade e identidade, praticamente trezentos anos depois da fundação da nossa ópera, cujos primeiros fecundos frutos nasceram no Teatro do Bairro Alto (hoje na Rua Luisa Todí, no Bairro alto, em Lisboa) com a dupla criada pelo compositor António Teixeira e pelo dramaturgo António José da Silva de onde se destacam Guerra de Alecrim e manjerona e Variedades de proteu, peças fundadoras do teatro e da ópera portugueses (1737), aqui disponíveis. Teatro onde deu os primeiros passos, a nossa cantora lírica mais extraordinária de sempre, consagrada por toda a europa: Luisa Todí.
Podemos considerar Gil Vicente (1465-1536) o pai do teatro português e uma espécie de avô da ópera portuguesa, já que as suas peças incluíam de forma sistemática momentos musicais e cantados². Mas após o prolífero trabalho do Teatro do Bairro Alto, os ventos da ópera demoraram a soprar no nosso país, primeiro por via da inquisição e demonização do teatro-musical e logo a seguir, por via de empresários e artistas italianos estabelecidos no Teatro régio de São Carlos, cuja gestão e domínio monopolizava artistas e obras, em torno do entretenimento bel cantista italiano, em detrimento de um repertório plural que refletisse os tempos de mudança da época e reflectissem uma arte de confronto e estímulo intelectual. Os compositores portugueses tinham de compor em italiano e os intérpretes portugueses viam-se privados de palco e de possibilidade de desenvolvimento³. Entretanto no Porto, o Teatro São João, além de uma intensa atividade operática, apoiava a ópera portuguesa. Constroem-se novos teatros como o Teatro da Trindade em Lisboa, financiado por um grupo de empresários, para criar um teatro de ópera mais acessível e que mais tarde veio a ser palco de emergência de novos talentos e casa de companhias de ópera.
Este complexo e a falta de apoio sintomática aos compositores e artistas portugueses explicam a produção limitada e falta de edição, de difusão nacional e de reconhecimento internacional. Embora mesmo assim se tenha assistido a um florescimento de novos criadores e repertório a partir da 2ª metade do século XX, com novas encomendas e apoios por parte de novas Instituições, este contexto ainda frágil, carece de um apoio estratégico para desenvolver e difundir o talento existente, no mercado global.
A Ópera Portuguesa à distância de um clique!
Um projecto ao encontro das necessidades
Até aos dias de hoje, o acesso a partituras para execução de repertório do passado, assim como à sua memória – sua história e evolução, principais interlocutores e obras, encontrava-se condicionado e disperso, nas mãos de privados ou de intérpretes que a ele individualmente obtiveram acesso, em edições antigas manuscritas nunca publicadas e ainda por catalogar, ou edições esgotadas e nunca re-editadas, assim como informação dispersa e inclusa em artigos de estudo e investigação acessíveis maioritariamente a um público académico restrito.
Por outro lado, a falta também de informação sistematizada e centralizada sobre que compositores do presente se debruçam especialmente sobre ópera, condicionava a difusão, apropriação e apresentação das suas obras e da ópera contemporânea em geral, não só no meio académico e no ensino, mas também junto de intérpretes e promotores. Realizar um programa com excertos de ópera de compositores contemporâneos ou conhecer o repertório existente era tarefa árdua, de investigação detectivesca.
Uma ferramenta digital que une investigação, palco e ensino!
Se a necessidade é mãe da invenção e engenho, aqui operou o seu efeito, já que este portal nasce precisamente para colmatar essa carência, afirmando-se como uma ferramenta que reúne estas várias valências: investição, palco e ensino, fomentando a presença da ópera portuguesa no ensino e na investigação, para compositores, intérpretes e investigadores contactarem de uma forma mais rica e sistemática com este repertório, assim como conhecer os seus criadores, legitimando e aprofundando a tradição do canto lírico e ópera, em língua portuguesa.
O POP afirma-se como uma plataforma digital, para potenciar o acesso e difusão da Ópera Portuguesa para o público em geral, profissionais e amadores que reúne informação desde os seus primórdios, no século XVIII aos nossos dias, contexto e evolução, compositores e listagem de óperas, com sinopses, tipologia, personagens, instrumentação e outros. Ainda disponibilizará partituras na redução de canto piano, para download grátis de repertório no domínio público, mas também de partituras gerais e ainda de excertos de óperas contemporâneas disponibilizadas pelos compositores e respectivas editoras, assim como informação em relação à sua acessibilidade e aquisição.
Terá ainda uma versão em inglês para potenciar difusão internacional.
Mais Ópera Portuguesa para todos
Está a ser desenvolvido pela Ópera do Castelo, com uma comissão cientifica e editorial que reúne profissionais de vários domínios da ópera e de reconhecidos musicólogos e investigadores, a contribuição de várias fontes e de Instituições como a Biblioteca Nacional, o MIC, o Teatro Nacional de São Carlos, CESEM, Fundação Calouste Gulbenkian e ainda Biblioteca Florbela Espanca e privados. Pretende ser uma porta de acesso nacional e internacional ao conhecimento e difusão da ópera portuguesa, dirigindo-se a um público vasto: desde estudantes e professores, a profissionais da área – compositores, libretistas, cantores, maestros, músicos, encenadores e programadores – e a todos os interessados no género lírico.
Espera-se que este acesso e difusão aumente a execução generalizada de ópera portuguesa, que passe a ser uma constante nas salas de espectáculos e por sua vez a procura editorial, potenciando novo repertório e público.
Idealizado em 2023 e agora materializando-se, graças ao financiamento da Direcção Geral das artes, este “site” arranca com cerca de 67 compositores, mais de de 160 óperas e disponibilizará 60 partituras integrais e excertos (26 partituras integrais e 15 reduções para canto e piano, para download gratuito. Um projecto que agora se inicia, mas em contrução e com a promessa de se ir alimentando com novos artistas, novas obras e novos interlocutores!
O POP convida-vos à (re)descoberta da nossa ópera, que é de todos afinal e deseja-vos uma fascinante degustação, tal como fascinante foi a sua construção!
Catarina Molder
Referências
- Mário Vieira de Carvalho, Pensar é morrer, ou, O Teatro de São Carlos na mudança de sistemas sociocomunicativos desde fins do séc. XVIII aos nossos dias (Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 1993).
- Carvalho, Pensar é morrer, ou, O Teatro de São Carlos na mudança de sistemas sociocomunicativos desde fins do séc. XVIII aos nossos dias
- Mário Vieira de Carvalho, Património Musical e Diálogo Intercultural, Património e auto-exclusão: o caso da ópera em Portugal, pp 30-2 (Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 2022)