António da Silva Leite nasceu a 23 de Maio de 1759, no Porto, e começou por receber as ordens menores, com vista a seguir uma carreira eclesiástica, antes de decidir apostar na sua vocação musical. Sobre a qualidade da sua formação, Ernesto Vieira escreve: «Devia ter tido mestres excelentes, ou, se estudou só, aplicou-se com a maior inteligência, porque as suas composições religiosas atestam uma ciência técnica que só pode adquirir quem faz convenientes estudos preparatórios.»¹. O autor especula que um dos possíveis professores de Silva Leite tenha sido o italiano Girolamo Sertori; no entanto, o compositor era demasiado novo – tinha apenas cinco ou seis anos – quando esse mestre esteve no Porto. É também possível que tenha integrado o quadro de alunos da Escola de Música da Sé do Porto, ou que tenha adquirido os seus conhecimentos de forma autodidata².
Com ou sem educação formal, o compositor teve um desenvolvimento precoce. Já em 1787, tendo apenas 28 anos, tratou de imprimir um compêndio de música, Rezumo de todas as regras, e preceitos da cantoria, concebido para uso dos seus discípulos³. Esta foi a primeira de quatro publicações com fins didáticos produzidas por Silva Leite: um Estudo de guitarra, publicado em 1796; O Organista instruído, da mesma altura, que poderá não ter chegado a ser impresso; e o Novo diretório fúnebre, publicado em 1806, contendo uma traducção da liturgia fúnebre reformada e hinos destinados à execução durante o ofício⁴. No ano seguinte, tornou-se professor no Real Colégio dos Meninos Órfãos e organista nos conventos de Santa Clara e de São Bento de Ave Maria, tendo sido nomeado mestre de capela desta última instituição em 1792⁵. Produziu diversas obras musicais para estes e outros conventos, bem como textos religiosos e sonetos dedicados a algumas das suas religiosas⁶.
A partir de 1806, Silva Leite destacou-se como maestro do Teatro de São João e, em 1808, passou a ocupar o cargo de mestre de capela da Sé do Porto. No teatro batizado com o nome do príncipe regente, dirigiu óperas como La Griselda, de Ferdinando Paer, e La morte di Cleopatra, de Sebastiano Nasolini, apresentada em 1807⁷. Ainda nesse ano, foram levadas à cena duas óperas cuja música é atribuída por alguns autores a Silva Leite: I Pungigli per equivoco e L’Astuzia delle donne. Por seu turno, David Cranmer sugere que o compositor poderá ter sido apenas responsável pela direção musical de I Pungigli per equivoco, de Fioravanti, e de L’Astuzia femminili, de Cimarosa, conforme o hábito da época, tendo-lhes eventualmente acrescentado árias da sua autoria⁸. Esta hipótese é igualmente sustentada por Rodrigo Teodoro de Paula; contudo, não existem registos que permitam comprovar qualquer uma das possibilidades, uma vez que as partituras de ambas as obras terão desaparecido no incêndio que deflagrou no teatro em abril de 1808, e deixou de pé apenas as paredes do edifício⁹.
A par da produção dramática de Silva Leite – da qual nos chega apenas o libreto da cantata I geni premiati – destaca-se um Tantum Ergo, publicado em Inglaterra em 1815 e amplamente difundido, bem como várias modinhas publicadas no Jornal de modinhas, reconhecidas pelas suas “melodias cativantes, ritmo picante e efeitos instrumentais de colorido expressivo¹⁰.
Por fim, importa assinalar que, em tempos de incerteza política, marcados pelas invasões das tropas francesas e pela ausência da família real do território nacional, Silva Leite foi também um promotor ativo da restauração e da causa liberal¹¹. No contexto das celebrações da expulsão das tropas francesas da cidade, ouviram-se um Te Deum dirigido pelo compositor e «uma sinfonia da sua autoria intitulada Restauração»¹². Mais tarde, a 22 de Outubro de 1820, quando o Corpo do Comércio da cidade do Porto ordenou a realização de uma missa solene na Igreja do Mosteiro para celebrar a vitória do regime liberal, voltou a ouvir-se um Te Deum de Silva Leite. Nessa ocasião, o compositor é identificado como examinador de cantochão do Bispado, uma posição de prestígio que reforça o seu relevo na vida cultural da cidade¹³.