Nascido em 1889, falecido em 1986 e com abundante actividade criadora entre, pelo menos, 1907 — data de uma Abertura apresentada enquanto aluno do Conservatório Nacional — e 1975 — data da obra orquestral Viagens na minha terra (6.º ciclo) —, Ruy Coelho é um dos mais prolíficos compositores portugueses do século XX. À causa operática dedicou especial esforço: para além de ser autor de mais de vinte obras músico-dramáticas, foi um defensor acérrimo da necessidade de criação e desenvolvimento de uma ópera nacional, como testemunham os seus opúsculos sobre a gestão do Teatro Nacional de São Carlos.
A sua primeira ópera, Serão da infanta, data de 1913. Com enredo situado na corte de D. João III, o libreto é escrito por Theophilo Braga, com quem havia já colaborado numa polémica Symphonia Camoneana, e a música, a julgar pela crítica de imprensa — porque as partituras foram entretanto inutilizadas — lembraria Jules Massenet e Giacomo Puccini. Durante a década de 1910 aproxima-se de artistas “modernistas” da sua geração e lança-se a projectos culturais mais ou menos ousados, alguns não concretizados, cujo exemplo mais feliz e mediático deverá ser a estreia do bailado A princeza dos sapatos de ferro, em 1918, no São Carlos, com a colaboração de José Pacheko e Almada Negreiros e a certa influência de Pétrouchka de Stravinski.
Ao mesmo tempo, talvez por necessidade de subsistência, tentou sucesso com a opereta Margarida do adro (1916), com libreto de Ruy Chianca sobre Alexandre Herculano, de que também não sobreviveram partituras. Entretanto, sai à luz a edição de Canções de saudade e amor sobre poemas de Affonso Lopes Vieira, em que advoga a criação do Lied português e cuja música, que pode talvez considerar-se neo-romântica, procurando cruzar a rusticidade do cantar popular com recursos de salão de câmara erudito, recebeu os melhores elogios dos também jovens António Joyce, Ivo Cruz, António Fragoso e Francine Benoit. Ruy Coelho prolonga depois a parceria com Affonso Lopes Vieira na «écloga musical» Crisfal, uma «oratória d’amor», um «meio e saudoso drama» — para aproveitar as palavras do libretista — que conclui em 1919 e que se estreia no ano seguinte. Para Ivo Cruz, tratou-se da «primeira revelação de musica dramatica portuguesa».
Também de 1920 data a composição da «ópera coreográfica» Auto do berço, sobre Antonio Corrêa d’Oliveira, cuja acção se desenrola durante o governo do Conde D. Henrique, pai de Afonso Henriques. A partitura foi mais tarde inutilizada, possivelmente em virtude de má recepção aquando da estreia, em 1921, muito embora os seus amigos próximos a tenham defendido acerrimamente: segundo manifesto subscrito por António Ferro, Diogo de Macedo, António Soares, Almada Negreiros, José Pacheko, Victoriano Braga, Bernardo Marques, Eduardo Vianna, Fernando Pessoa, entre vários outros, o Auto do berço foi «uma afirmação da Raça» e só não entende a música de Ruy Coelho «quem não é português».
Pouco depois, em 1922, escreve a breve Rosas de todo o anno sobre Júlio Dantas, figura bastante longínqua do círculo de Orpheu, como é claro pelo célebre manifesto de Almada Negreiros; Luiz de Freitas Branco, condiscípulo berlinense que Ruy Coelho acusara de plágio anos antes, classifica-a como «a sua obra scenica mais reveladora de talento».
O projecto operático que se seguiu — simultaneamente a sua primeira grande ópera em três actos, o título que mais destaque mediático lhe deu durante toda a I República e, curiosamente, do ponto de vista temático, o menos «português» — foi Belkiss. A história trata da relação mítica da Rainha de Sabá com Salomão — um conhecido caso anterior de tratamento operático destas figuras é o de La reine de Saba (1862) de Charles Gounod. Tal como este texto, também a música se mostra permeável ao imaginário simbolista, em particular à música de Claude Debussy, mas Belkiss deve-se também ao grand opéra de Massenet, nos seus números de efeito monumental, com coros e corpo de baile, e no exoticismo evocativo de, por exemplo, Cléopâtre (1914).
O sucesso mediático de Belkiss tem origem no prémio que conquista na segunda edição do Concurso Nacional de Música, certame organizado pelo Ministerio de Instrucción Pública y Bellas Artes de Espanha. Só foi possível estrear Belkiss, contudo, em 1928. O assunto exótico não estaria necessariamente fora de tempo — três anos depois Ottorino Respighi aproveitaria a mesma figura mítica para o seu bailado Belkis —, mas a ópera de grandes dimensões que Ruy Coelho faz estrear entretanto coaduna-se mais com o ímpeto nacionalista da «Revolução Nacional» de 28 de Maio de 1926: Inês de Castro. Composta no ano do golpe militar, a partir de António Ferreira e António Patrício, e estreada a 15 de Janeiro de 1927, a ópera exacerba um misticismo nacionalista cujo personagem central acaba por ser o povo português, força motriz do cortejo fúnebre do final do terceiro acto.
1927 será também o ano de estreia de outras duas óperas, estas de pequena dimensão: Sorôr Mariana, sobre peça de Ruy Chianca a partir das Lettres portugaises alegadamente escritas por Mariana Alcoforado, e a «comédia lírica» O cavaleiro das mãos irresistíveis, sobre Eugénio de Castro, de fundo leve e irónico, sobre um fidalgo espanhol que sofre um acidente enquanto cavalgava e que se enamora de uma portuguesa.
Seguem-se duas óperas de grandes dimensões: Entre giestas (1929) e Tá-Mar (1937), respectivamente sobre Carlos Selvagem e Alfredo Cortez. Ambas testemunham a procura de uma arte «nacional» dirigida ao povo português e nele fundamentalmente ancorada. Em 1940, no âmbito da dupla comemoração dos centenários da fundação da nacionalidade e da sua restauração, Ruy Coelho leva a São Carlos a ópera D. João IV, com libreto de Silva Tavares.
Chegado a este ponto, as escolhas de Ruy Coelho sofrem curiosa transformação: lança-se a um conjunto de cinco óperas sobre Gil Vicente. Depois do Auto da barca do inferno (1944) — que chega a ser anunciado como título de encerramento da campanha de Ruy Coelho pela ópera nacional —, o compositor dedica-se a Inês Pereira (1952), em três actos, com libreto de Gino Saviotti. Seguiu-se A feira (1957), o Auto da alma (1959) e, por fim, o Auto da barca da glória (1970).
Entre estes títulos haverá ainda lugar para três outras pequenas óperas — uma de fundo poético, Rosa de papel (1947), sobre Augusto de Santa Rita, duas de temática folclorista sobre libreto de Charles Oulmont: Na noite de Santo António (1957) e a «parabole» ou «drame folklorique» La belle dame qui n’a pas pêché (1968) — e ainda uma estranha e porventura auto-biográfica «ópera-declamação-ballet-mímica», em três actos, acerca do «conflito entre o artista que procura os caminhos que têm florescido desde os mais antigos tempos, e o panorama de certa frivolidade dos tempos modernos»: Orfeu em Lisboa (1963-1969).
S | Mz | T | Bar + Fl | Cl | Fg | Hn | C Tpt | Hp | Timp | Perc | Vln | Vla | Vc | Cb | Pf
Ver Ópera
Edward Ayres d’Abreu, Os «autos com barcas» de Gil Vicente enquanto ópera — Análise de propriedades significantes nos Auto da barca do inferno (1944) e Auto da barca da glória (1970) de Ruy Coelho e na Trilogia das barcas (1969) de Joly Braga Santos». Tese de Doutoramento em Ciências Musicais — Musicologia Histórica, Universidade NOVA, 2021. [http://hdl.handle.net/10362/136701]