Libretista: Vítor Rua
Teatro musical/ópera performativa
Data: 2020
Duração: 60 minutos
Pequeno formato
Voz
Home Sweet Sound (Som doce lar) não é uma colaboração no sentido convencional; é uma fricção contínua entre dois universos idiossincráticos – o piano como memória e presença física, a electrónica como deriva e extensão.
Esta ópera – sem canto no sentido operático tradicional – retrata vinte e quatro horas da vida de uma pianista do século XXI: acordar, preparar o pequeno-almoço, praticar, divagar, perder-se, regressar.
…tic-tac… tic-tac… tic-tac…
O tempo doméstico transforma-se em estrutura musical. A performer acorda debaixo do piano, como se emergisse do interior do próprio instrumento – gesto inaugural que define toda a dramaturgia: aqui, o piano não é acompanhamento; é habitat.
A casa é palco. O pequeno-almoço – cereais, leite, sumo – torna-se gesto cénico. A banalidade do quotidiano convive com a exigência da prática musical.
Do ponto de vista etnomusicológico, Home Sweet Sound inverte a perspectiva tradicional: não observa uma cultura musical distante, mas encontra estranheza e ritual no mais próximo e familiar.
Ao longo da obra, assiste-se a uma simbiose progressiva entre o piano acústico – pesado de tradição – e os dispositivos electrónicos – leves, mutáveis, efémeros.
No final do dia, surge um vestígio: uma memória distorcida da Sonata ao Luar. Não como citação reverente, mas como eco alterado – o que resta quando uma obra passa por um corpo durante toda uma vida.
Home Sweet Sound não começa – apenas irrompe. Não termina – apenas se suspende. Como o tempo doméstico. Como o som que, mesmo em silêncio, ainda ressoa.
…tic-tac… tic-tac… tic-tac…
Pf | Melódica | Electr | Objectos do quotidiano | Metrónomo
Data: 2019
Local: Teatro Municipal de Vila do Conde
Encenação: Vítor Rua
Elenco: Joana Gama