Libretista: Tiago Schwäbl
Data: 2021
Língua: Português
Duração: 28 minutos
Pequeno formato
Anne Adams: soprano
Maurice Ravel: barítono
Anne Adams, 53, ouvindo compulsivamente Ravel, pinta em 1993 o quadro Unravelling Bolero. Aos 60, é-lhe diagnosticada afasia progressiva primária. Em 2007 morre sem palavras.
Maurice Ravel, 53, desafiado por Ida Rubinstein a compor um fandango, devolve-lhe, em 1928, um bolero. Nos anos seguintes vai perdendo os gestos e a fala. Em 1937 morre sem palavras.
Hn | Vln | Vc | Hp | Perc | Electr
Partitura: Portal da Ópera Portuguesa
IN(opeRA)VEL introduz a justaposição desta coincidência, que pode, inclusive, nem coincidir. É antes o vislumbre de um paralelismo — temporal, sonoro, obcecado, sintomático —, forçado aqui a partilhar o mesmo cronómetro decrescente. O vínculo entre Adams e Ravel estabelece-se no som e na ausência de palavras, no bolero e na consequência afásica que lhes aconteceu. Enquanto Anne Adams se refugia nas cores, Maurice Ravel encontra caminhos e sinais nos poemas lidos e decorados na sua juventude: Charles Baudelaire contribui com as palavras de Correspondences e L’albatros, que em si mergulham na imobilidade física e trazem a afasia no bico. O poeta morre em 1867, aos 46, afásico e hemiplégico. Assim se adensa a frágil ligação entre personagens, em formato de pseudo-herança, com eixo no Bolero de Ravel.
O maior crescendo da história da música surge agora invertido, acompanhando as personagens na sua cedência ao silêncio; no entanto, preservam-se a estrutura melódica e os trezentos e quarenta compassos em implacável contagem decrescente. Se, por um lado, o Bolero proporciona o encontro temporal das personagens, por outro ativa o temporizador derradeiro: Adams e Ravel, advindos de universos expandidos em épocas diferentes, contorcem-se e vogam em conjunto sobre a matéria rítmica.
Mas esta convivência não será necessariamente seguida pelas personagens. Sobre elas, para além da inevitabilidade decrescente, pesa ainda a interferência de duas vozes externas que testemunham clinicamente a coincidência, polvilhando biograficamente este encontro não existente.
Data: 2021
Local: Festival Informal de Ópera, Braga
Encomenda: FIO — Festival Informal de Ópera
Encenação: Joana Providência
Direcção musical: Jan Wierzba
Elenco: Nataliya Stepanska, Tiago Matos e Sinfonietta de Braga