Libretista: Vítor Rua
Libreto a partir dos Poemas Zen de Herberto Helder
Ópera contemporânea/teatro musical experimental
Data: 2023
Língua: Português
Pequeno formato
Soprano
Ópera em 16 Actos: Poemas Zen de Herberto Helder nasce da escuta do silêncio. Não do silêncio como ausência, mas como matéria primordial onde a palavra e o som aguardam a sua forma. A partir dos Poemas Zen de Herberto Helder, a obra constrói um território contemplativo onde música e poesia não se ilustram mutuamente — transformam-se uma na outra.
Não existe narrativa linear, nem progressão dramática convencional. Em vez disso, a ópera organiza-se em dezasseis estados de consciência. Cada acto é um instante suspenso, um gesto mínimo que convoca o infinito. Como num jardim zen, onde a disposição de cada pedra altera o sentido do todo, também aqui cada som, cada respiração, cada pausa redefine o espaço interior da escuta.
A palavra de Herberto Helder surge rarefeita, como fragmento luminoso. Não é declamada com peso retórico; é deixada em suspensão, permitindo que o eco a complete. A música envolve-a, contorna-a, por vezes dissolve-a. O silêncio torna-se parceiro activo da composição, tão expressivo quanto qualquer acordo ou linha melódica.
O palco converte-se num lugar de respiração partilhada. Os intérpretes não representam personagens – tornam-se presenças. Cada instrumento é tratado como entidade singular: a percussão como pulsação primordial; o trombone como sopro grave da terra; o piano como arquitetura harmónica subtil; as cordas como linha que atravessa o tempo; a flauta e o clarinete como ar em movimento. A soprano eleva-se como fio de luz, quasi desmaterializada, aproximando-se do limiar entre som e silêncio.
A encenação evita excesso. O espaço cénico é depurado; a luz desenha atmosferas de recolhimento; o vídeo – quando surge – não impõe imagens, mas sugere estados. Tudo converge para um mesmo propósito: criar um ambiente de atenção plena, onde o público não consome espectáculo, mas habita um tempo expandido.
Nestes dezasseis actos, a ópera não procura explicar o zen; pratica-o. Cada secção é um exercício de presença. A música não conduz a um clímax tradicional – conduz à consciência do instante. E quando a última vibração se extingue, permanece a sensação de que algo continua a soar, não no palco, mas no interior de quem escutou.
Assobio | Fl | Cl | Perc | Tbn | Pf | Gtr | Vln | Cb
Data: 2023
Local: Teatro-Cinema de Fafe
Elenco: Andrea Conangla e Colectivo Phoebus