Libretista: Vítor Rua
Opereta em 1 acto
Data: 2000
Língua: Português
Duração: 65 minutos
Pequeno formato
2 Sopranos
Barítono
Tenor
Uma Vaca Flatterzunge apresenta-se como um organismo para-operístico em permanente estado de instabilidade crítica, onde a tradição da ópera é simultaneamente convocada, distorcida e desmontada. O compositor adopta uma postura declaradamente satírica face às convenções do teatro lírico, apropriando-se de arquétipos históricos – da ópera bufa à ópera cómica, da opereta ao teatro musical ligeiro – não para os reabilitar, mas para os submeter a um processo de erosão conceptual e formal.
A dramaturgia assenta na fragmentação do discurso vocal, na trivialização consciente do diálogo e na dissolução do recitativo clássico, criando um espaço híbrido entre o cantado e o falado, onde a narrativa linear é substituída por um fluxo descontínuo de situações sonoras, gestos e signos. Neste contexto, a música instrumental assume um papel estrutural central, afirmando-se como verdadeiro motor dramatúrgico da obra, num gesto assumidamente pós-modernista e auto-reflexivo.
Esse universo sonoro é corporizado por um conjunto de intérpretes de referência internacional, cuja presença não é meramente executante, mas constitutiva do próprio pensamento da obra. Os saxofones de Daniel Kientzy, figura histórica da música contemporânea e da improvisação experimental, articulam-se com a tuba e o trombone de Giancarlo Schiaffini, referência maior das práticas pós-serialistas e improvisadas europeias. O piano de John Tilbury, intérprete emblemático de Morton Feldman e do pensamento musical radical do século XX, introduz uma dimensão de escuta dilatada e de tempo suspenso. O Quarteto Arabesco acrescenta uma escrita camerística de grande rigor tímbrico, funcionando como tecido nervoso entre o gesto instrumental e a cena.
A dimensão vocal, longe de uma caracterização psicológica tradicional, emerge como campo de fricção entre voz, corpo e linguagem. As vozes de Ana Ferreira, Hélder Bento, Marco Alves dos Santos e Margarida Marecos constroem personagens arquetípicas, despojadas e irónicas, inscritas num imaginário esquizoide e alegórico. São figuras sociomusicais capturadas num mundo satírico, corrupto e bizarro, onde o senso comum é exposto na sua fragilidade e o absurdo se torna método crítico.
O espaço cénico é dominado por uma escultura singular concebida por Rui Chafes — um rochedo-vagina suspenso sobre o proscénio, corpo estranho e quase alienígena, que concentra e irradia tensões simbólicas entre matéria, desejo e transcendência. A escrita corporal desenvolvida por Ana Borralho e João Galante articula-se com paisagens vídeo líricas e abstractas de Paulo Abreu, enquanto a indumentária e joalharia surrealistas de Ilsa D’Orzac acentuam o carácter burlesco e fantasmático do dispositivo cénico.
Uma Vaca Flatterzunge afirma-se, assim, como um campo expandido entre música contemporânea, teatro do absurdo e performance art: um teatro patético e lúcido, onde compositores, intérpretes e críticos/musicólogos parecem coexistir num mesmo plano ficcional. Uma obra que irradia vitalidade e ironia, questionando, a partir de dentro, a própria ideia de ópera no presente.
Sax | Tbn | Tb | Pf | Vln | Vla | Vc | Perc | Electr
Data: 2009
Local: Culturgest – Fundação Caixa Geral de Depósitos
Direcção musical: Vítor Rua
Elenco: Eddie Prévost, Vítor Rua, Daniel Kientzy, Giancarlo Schiaffini, John Tilbury, Quarteto Arabesco, Ana Ferreira, Hélder Bento, Marco Alves dos Santos e Margarida Marecos