João Guilherme Daddi

1813
-
1887
Compositor

Biografia

O pianista e compositor João Guilherme Daddi nasceu a 12 de Novembro de 1813, no Porto. Mostrou desde cedo aptidão para a música e começou as suas lições de piano com o italiano Caetano Martinelli com 7 anos. Dois anos mais tarde, o seu rápido progresso motivou os seus pais a viajar com o jovem músico para Lisboa, onde se apresentou ao público pela primeira vez, no Teatro de São Carlos¹. Ainda em criança, os seus estudos de canto asseguraram-lhe um papel na ópera Camilla de Fioravanti, apresentada em 1824. O público rendeu-se ao talento do jovem e, um ano depois, ainda com 11 anos, Daddi estreou-se como compositor e chefe de orquestra com uma Cantata escrita por ocasião do aniversário de D. João VI².

Embora não se lhe conheçam atividades relevantes durante o período miguelista, Daddi reaparece com o advento do governo liberal, em 1833, compondo, inclusivamente, um hino Te Deum para assinalar o desembarque de D. Maria II em Lisboa. Nos anos seguintes, a sua carreira de pianista floresceu e abriu caminho para uma digressão artística, em 1839, através da qual alcançou os públicos de Espanha, França e Inglaterra. Em Portugal, teve a oportunidade de se apresentar ao lado de Franz Liszt no palco do Teatro de São Carlos, a pedido do próprio virtuoso, interpretando a fantasia para dois pianos de Thalberg sobre Norma, de Bellini³.

No início da década de 1840, Daddi foi convidado pelo Conde de Farrobo a assumir a direção musical do Teatro da Rua dos Condes, onde, por iniciativa do aristocrata e do diretor do teatro, Emille Doux, se começaram a apresentar óperas cómicas traduzidas para a língua portuguesa⁴. Entre 1841 e 1843, ouviram-se nesse teatro, sob a direção de Daddi, O Dominó Preto, Neve, Receção de uma Cantora e Fra Diavolo, de Auber; A Dama Branca, de Boieldieu; Le Pré aux Clercs, de Hérold; e O Barbeiro de Sevilha, de Rossini⁵. Inserido neste ambiente e com o incentivo do Conde de Farrobo, o compositor decidiu aventurar-se no género dramático com a ópera cómica O Salteador, representada a 1 de Maio de 1845 no Teatro das Laranjeiras. De acordo com Ernesto Vieira, tratava-se de «uma pequena peça n’um acto, que foi desempenhada pelo proprio conde, por D. Carlos da Cunha Menezes, Duarte de Sá, D. Carlota Quintella e Fortunato Lodi⁶.

Nos anos seguintes, compôs duas outras obras teatrais: a «extravagância dramático-lírica» Um passeio pela Europa, com poesia de José Maria da Silva Leal e inspirada num antigo vaudeville francês, apresentada nas Laranjeiras em 1851; e a opereta L’organiste, com texto em francês, apresentada no mesmo teatro em 1861⁷. Terá igualmente composto, no início da década de 1840, uma ópera intitulada Ismalia, que não chegou a ser levada à cena⁸.

A par da sua atividade como pianista e compositor, Daddi destacou-se como dinamizador da vida musical em Portugal e como divulgador de repertório internacional no território nacional. Ao lado de figuras como Joaquim Casimiro Júnior, Santos Pinto e Guilherme Cossoul, regeu diversos concertos de sociedades e academias de amadores, entre as quais se destacou a Academia Melpomenense. Foi igualmente responsável pela inauguração de sessões públicas de música de câmara, com um concerto realizado no salão do Teatro D. Maria, em 1863⁹. Mais tarde, em 1874, criou a Sociedade de Concertos Clássicos – projeto efémero que se extinguiu em menos de três meses – e, em 1875, fundou a Sociedade de Música de Câmara, ambas dedicadas à promoção de obras dos principais compositores do período clássico e do romantismo¹⁰.

João Guilherme Daddi faleceu em Lisboa, a 16 de Maio de 1887.

Óperas

L’organiste (1861)

Um passeio pela Europa (1851)

O Salteador (1845)

Ismalia (1841?, inédita)

Referências

  1. Fernando Lopes-Graça e Tomás Borba, Dicionário de Música Ilustrado: A-H (Lisboa: Edições Cosmo, 1962), 385.
  2. Ernesto Vieira, Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes: Historia e Bibliographia da Música em Portugal. II Volume (Lisboa: Lambertini, 1900), 374-5.
  3. Lopes-Graça e Borba, Dicionário de Música Ilustrado, 385.
  4. Lopes-Graça e Borba, Dicionário de Música Ilustrado, 385-6.
  5. Isabel Gonçalves, «A introdução e a recepção da ópera cómica nos teatros públicos de Lisboa entre 1841 e 1851,» Revista Portuguesa de Musicologia, no. 13 (2003): 97.
  6. Vieira, Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes, 376.
  7. Vieira, Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes, 376-8.
  8. Luísa Cymbron, «Entre o modelo italiano e o drama romântico – os compositores portugueses de meados do século XIX e a ópera,» Revista Portuguesa de Musicologia, no. 10 (2000): 122.
  9. Lopes-Graça e Borba, Dicionário de Música Ilustrado, 385.
  10. Vieira, Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes, 378. Lopes-Graça e Borba, Dicionário de Música Ilustrado, 385.