José Alberto Gil, nasceu na Covilhã a 3 de Março de 1949, tendo realizado os estudos gerais no Seminário de Salesianos de Mogofores, onde estudou música, piano e composição. Em 1968, já em Lisboa, teve aulas com o compositor Jorge Peixinho na Juventude Musical Portuguesa e, por volta desta data, ingressou no curso de psicologia no antigo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (actual ISPA – Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida).
Foi redactor do Diário de Lisboa na secção de Jazz, colaborou com o grupo de Teatro 1.º Acto, em Algés, trabalhou com o artista Ernesto de Sousa e foi cofundador do projecto Ar.Co (onde viria a ser o primeiro local da sua Companhia de Opera Buffa). Ainda antes da Revolução de 25 de Abril, começou a compor/encenar happenings com a colaboração de cantores profissionais e outras figuras como Luiza Neto Jorge, Manuel João Gomes Paciência, Quenina, Luís Calado e João César Monteiro.
Fundou, em 1973, conjuntamente com Helena Vaz e o tenor Fernando Serafim, a Companhia de Opera Buffa, mais tarde designada por Marionetas de São Lourenço. O projeto Marionetas de S. Lourenço tinha como objetivo estudar, interpretar e reconstituir as características da ópera cómica do século XVIII. A partir dos conhecimentos obtidos, tentar a sua utilização na actualidade, sem destruir as suas características históricas e, sobretudo, tentar transmitir o traço psicológico das personagens da ópera: mordacidade e truculência¹. No período pós-revolucionário (depois do 25 de Abril de 1974), percorreu o país com as Marionetas de São Lourenço e a sua carroça, nas campanhas de Alfabetização e Dinamização Cultural organizadas pela Comissão Dinamizadora Central (estrutura da 5.ª Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas), que pretendiam democratizar o acesso à cultura e outras áreas do conhecimento às populações dos meios rurais das zonas norte e centro de Portugal. Em 1984 a companhia participa nos Encontros ACARTE (promovidos pela Fundação Calouste Gulbenkian), apresentando uma exposição sobre a obra do escritor e dramaturgo português António José da Silva, – «O Judeu» (1705-1739) -, através de bonecos/marionetas que recriavam personagens das suas comédias, a que o próprio autor dava o nome de «óperas joco-sérias». Esta exposição-espetáculo consistia, assim, na actuação e, simultaneamente, na apresentação das marionetas pelo cantor Fernando Serafim, o Cicerone. O agrupamento de câmara que o acompanhava era constituído por Fernanda Nunes (cantora), Artur Moreira (clarinete), Carlos Passos (violino), Leonardo de Barros (violoncelo), Nelson Rocha (trompete) e José Alberto Gil (percussão)².
Algumas das suas óperas reflectem uma composição musical arquetípica, no que diz respeito à reutilização e mistura da música do século XVIII composta para óperas buffa e cómicas (ex: António José da Silva/António Teixeira), reaproveitando árias e textos das mais variadas origens, Exemplos: D. Quixote (António José da Silva), Salomé (Antigo testamento), As variedades de Proteu (António José da Silva), O Romance do Conde De Alemanha (conto tradicional português) e O Pranto de Maria Parda (Gil Vicente). A composição da música para as óperas das marionetas por José Alberto Gil era muitas vezes um processo de criação imediata, dependendo das ocasiões e das necessidades cénicas e dramatúrgicas do momento. O padrão barroco é frequente na sua música, nas vertentes rítmicas e formais (aberturas, árias e recitativos), porém evitando a tonalidade sempre que possível. A interpretação da sua música instrumental requer também algumas nuances, a assinalar: a presença frequente de portamentos e glissandos principalmente nos instrumentos de sopro; e a utilização propositada de algumas práticas e técnicas da música não erudita, tendo como resultado uma sonoridade e ambiência próprias.
José Alberto Gil viu algumas das suas óperas serem reconhecidas e premiadas internacionalmente, em Itália, 1977, com o filme realizado por Jorge Listopad, O Romance do Conde de Alemanha e no Festival Mondial du Théâtre de Nancy, em 1980.
Entre as peças que encenou e representou, destacam-se: Gerinaldo o Atrevido, Romance do Conde da Alemanha, D. Mariana, Pranto de Maria Parda, D. Quixote, Salomé, Os encantos de Medeia, As variedades de Proteu e O Procurador-Geral da Cultura³.
Compôs ainda música para cinema, para Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1971) de João César Monteiro, e Relação Fiel e Verdadeira (1987) e Luz Incerta (1994) de Margarida Gil.
Este compositor viria a falecer a 10 de Janeiro de 1998.