Libretista: Alexandre Delgado
Libreto a partir da peça O tempo feminino de Miguel Rovisco
Ópera de câmara em 2 actos
Data: 2006-09
Língua: Português
Duração: 60 minutos
Pequeno formato
D. Maria I: soprano
D. Henriqueta/Dama Encarnada: mezzo-soprano
Dama Verde: soprano
Dama Amarela: soprano
Rosa: actriz
Entre ecos da Revolução Francesa e o princípio da derrocada do Antigo Regime, D. Maria I é a Rainha Louca, uma rainha enclausurada num mundo de demência e evasão. Cómica, trágica e comovente, essa rainha «que deixou de o ser» foi encarnada de forma inesquecível pela actriz Fernanda Alves na estreia da Trilogia Portuguesa de Miguel Rovisco no Teatro Nacional D. Maria II, em 1987.
A peça baseia-se em dados históricos que contrariam dois séculos de ideias feitas da historiografia anti-monárquica. Responsável pela criação da Academia das Ciências e da Biblioteca Nacional, promotora da primeira expedição científica à Amazónia, da renovação do Ensino e da Marinha, D. Maria I (1734-1816) era culta e sensível, dada à música e às artes; reinar é que não estava na sua natureza. A sua loucura, que a afastou definitivamente do cargo em 1792, teve várias origens prováveis: padres fanáticos convenceram-na de que o seu pai ardia no inferno, por culpa do Marquês de Pombal e da perseguição aos jesuítas; à perda do marido somou-se a morte do seu primogénito aos 27 anos, de varíola; os padres teriam proibido que fosse inoculada a vacina que estava a ser experimentada na época, «por ser contra a vontade de Deus». A prisão de Maria Antonieta e a ideia de que a própria França, luz do Velho Continente, podia decapitar a sua rainha, terá sido a gota de água.
Nesta ópera, D. Maria quer evadir-se para um mundo «longe desta miséria», um mundo de sonho e beleza simbolizado pela Basílica da Estrela, essa marca que ousou deixar numa Lisboa «que não me pertence, cheia de cães, malfeitores e lixo». A seu lado tem a jovem Henriqueta, gélida e azeda dama de companhia, que traduz a reação desumanizada contra a sociedade; o confronto entre as duas mulheres preenche todo o 1.º acto, que termina com a rainha a dançar o minueto, «como outrora, com o meu amado esposo». Outra presença é Rosa, a criada negra cujo modelo histórico era uma anã acarinhada pela rainha, que representa o bom selvagem, o ser das origens para quem o conceito de pecado não existe; a fofa, «uma dança obscena, lá das vossas áfricas», será o seu modo de evasão no fim da ópera.
O 2.º acto concretiza alucinações de D. Maria: no seu aniversário, é visitada por três damas que traçam um retrato hilariante e persistente da realidade histórica portuguesa, entrecortado por desabafos e recordações da rainha, que culminam na evocação histórica do aeróstato, o balão que se elevou nos jardins do Palácio da Ajuda, levando um chimpanzé a quem ela secretamente deu o nome de Estrela…
Numa orquestra de 13 elementos com quinteto de sopros e quinteto de cordas, a harpa, o cravo e a marimba simbolizam respectivamente D. Maria, Henriqueta e Rosa; tímpanos, xilofone e outras percussões contribuem para um clima mais exuberante no 2.º acto. Segunda parte duma Trilogia da Loucura começada em 1994 com O Doido e a Morte, nesta ópera, composta entre 2003 e 2009, visitam-se os fantasmas da mente humana ao som dum século XVIII imaginário.
Fl | Ob | Cl | Fg | Hn | Vln | Vla | Vc | Cb | Hp | Cemb | Mar
Publisher: Ava Musical Editions
A estreia cénica de uma ópera portuguesa contemporânea já é, por si só, invulgar; nada comum, todavia, foi o facto de Alexandre Delgado não apenas reincidir em 2011 na apresentação de uma nova ópera – estreara em 1994 O Doido e a Morte, sobre a peça homónima de Raul Brandão –, como, uma vez mais, recuperar no libreto de A Rainha Louca um texto dramático que foi injustificadamente apagado do reportório das companhias teatrais: a peça O tempo feminino de Miguel Rovisco (1959-1987), terceira parte da Trilogia portuguesa, escrita em 1986.
Na redação do libreto, o compositor seguiu com rigor a peça em que o baseou, optando apenas por condensar na apoteose musical que antecede o final da ópera a 3.ª Cena (e última) da peça, aquela em que se explica a loucura da rainha. Mais ícone de um desencontrado Portugal contemporâneo do que retrato histórico, esta D. Maria subsome-se em puro excesso, palco de uma imaginação delirante e atormentada em que se revolvem as pavorosas notícias que lhe chegam da Revolução Francesa, a dúvida sobre o destino eterno de D. José I, seu pai (afinal o responsável pela ação do Marquês de Pombal, que frontalmente a rainha renegara), ou, ainda, a morte do Infante D. José, seu filho, a quem supostamente recusara a vacina contra varíola, confiada numa distorcida religiosidade milagreira.
Na primeira das duas partes em que se divide a ópera A Rainha Louca, Alexandre Delgado caracteriza as co-protagonistas do drama, distinguindo-as por timbres e leitmotives que lhes vincam um destino. A harpa marca a poética e vacilante D. Maria; o cravo a enervada e amarga Henriqueta; e a marimba sinaliza a criada, num eco músico-dramático da inocência festiva e inebriante atribuída pela cultura europeia de Setecentos ao «bom selvagem» ultramarino.
Na segunda parte, o compositor desenha um delírio que vagueia entre o onirismo de D. Maria e endiabrada intervenção das mulheres-espectros que a atormentam, tendo por horizonte o típico frenesi da opereta ou do teatro de boulevard de finais do século XIX. Nesta belíssima sequência, é particularmente tocante o modo como texto e música entretecem o aflitivo conflito da protagonista, que tenta subtrair-se ao pesado exercício da memória como flagelo impiedoso (tão característico da auto-reflexividade portuguesa) através de uma levíssima fuga poética, recordando o seu único momento de felicidade, «nessa tarde de Abril, há décadas e décadas», quando nos jardins do Palácio da Ajuda se elevou no ar o aeróstato, «um balão de papel, de forma oval, com dezoito pés de comprimento». Esta impressiva suspensão desemboca num epítome festivo dos motivos da ópera e das mais desvairadas citações da memória musical do compositor – em irrupções também feéricas e espectrais de Wagner, Puccini, Bizet, Rimski-Korsakov, Tchaikovski… –, terminando A Rainha Louca numa inesperada «fofa», dança libertadora da criada, que exorciza numa benfazeja vitalidade tímbrica e rítmica as memórias torturadas de um país adiado.
Este «ramificado estudo sobre a loucura» – definição em que o compositor sintetiza a sua nova ópera (afinal um «estudo» já iniciado em O Doido e a Morte, embora aqui se densifique o que na obra de 1994 era festiva jouissance cómica) –, teve a sua estreia absoluta no Pequeno Auditório do CCB, num espectáculo integrado no Festival de Almada de 2011. A encenação de Joaquim Benite sinalizou com agudeza este conjunto de variações surrealizantes a que a loucura preside, quer circunscrevendo um espaço tão opressivo quanto a torturada mente da rainha, quer realçando a estranheza emancipadora dos intermitentes e contrastantes desejos de fuga.
Data: 2011
Local: Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa
Encomenda: Centro Cultural de Belém e Câmara Municipal de Matosinhos
Encenação: Joaquim Benite
Direcção musical: Alexandre Delgado
Elenco: Ana Ester Neves, Maria Luísa de Freitas, Ana Paula Russo, Teresa Cardoso de Menezes, Nilma Santos e OrchestrUtopica