Libretista: Carlos Marecos
Libreto sobre poema de Teresa Duarte Martinho
Ópera curta
Data: 2003
Língua: Português
Duração: 27 minutos
Pequeno formato
Mãe: soprano
Filha: soprano
Fl | Cl | Ob | Fg | Hn | Tpt | Tbn | Perc | 2 Vln | Vla | Vc | Cb
Em Caminho ao Céu – Cenário Gaza a cena é uma pintura. As cantoras, os instrumentistas, o maestro, os espectadores, todos estão na pintura. Sim, parte do público está em palco, partilhando com os performers o espaço cénico.
A luz, o vídeo e o grão na imagem, no fundo e nas faces, constroem essa pintura. As imagens projetadas, formando uma cenografia em tríptico, não são bem definidas. Embora realistas, as imagens distorcem-se pelas reentrâncias das paredes do palco, e o grão da projeção nas superfícies rugosas imprime-lhes a «imperfeição» bela e instável da textura de uma tela de pintura.
A sombra, a luz, os rostos com faces visíveis e faces ocultas, as mãos, as silhuetas recortadas, as sombras projetadas no chão que se movem com os corpos. As cores, o azul, o cinzento nas faces dos performers, o tom de terra, as linhas desenhadas no chão que ligam os instrumentistas ao maestro, e a cor do pôr-do-sol – a esperança, a luz que se desloca e destaca cada solista instrumental.
Os corpos, o seu movimento, a sua estaticidade, a pele, a pele suja, o movimento das mãos, os olhares, os olhares entre mãe e filha, o olhar de sofrimento da filha, a coragem e o suporte da mãe. Os instrumentistas, também são personagens, mas que não representam, limitam-se a estar, a ser, a observar, e com a música oferecem suporte, solidariedade às vítimas, também lhes dão o conforto possível, ajudam-nas a suportar a dor.
O cenário é Gaza, a mulher jovem está ferida atingida por um bombardeamento, a pele cinzenta do pó de betão destruído, o rosto e os membros estão feridos e sangram.
O público está dentro da cena, perto dos performers, sentados ao lado dos instrumentistas, tão perto como a violinista está perto da outra violinista, habitam o mesmo espaço, foram colocados no interior do objeto artístico para o testemunhar, como se fossem virtualmente transportados para dentro da ação, como num sonho. São personagens, fantasmas que habitam a cena.
Os espectadores em palco constroem o seu próprio grande plano cinematográfico, um grande plano de carne e osso; cada um é protagonista e parte do enquadramento de outro. Na plateia o grande plano é comum a essa parte do público, observado através do vídeo ao vivo, a intimidade filmada de perto, própria da linguagem cinematográfica.
Mas a proximidade física supera a tecnologia, o grande plano de carne e osso é mais íntimo.
Os músicos observam o caminho de sofrimento da Filha e da Mãe, conhecem-no, têm um olhar particular, cada um, a seu tempo, tenta tocar uma mesma melodia, um solo que nunca está completo, que é sempre interrompido. Um outro solista continua o que o anterior já começou completando-se a melodia fragmento a fragmento, criando um sentido, acompanhados pelo movimento da luz do pôr-do-sol, uma luz que também dança, que se move no espaço e no tempo.
A fragmentação é a forma musical, é preciso ir juntando todos os fragmentos para a estrutura e a forma se desenharem, a memória de cada solo inacabado cresce à medida que a peça se desenrola. Os músicos possuem o segredo da forma, também eles têm a pele cinzenta de pó de betão, são habitantes de Gaza.
A Filha, embora desfaleça três vezes, insiste em prosseguir, tentando socorrer os outros feridos. Afetivamente procura o contacto direto com a Mãe: «segura a mão, sou eu que seguro a chaga». Com esse apoio, a dor torna-se suportável para continuar. As linhas do chão, que conectam os performers, deslocam-se para junto delas, erguendo-se de uma forma que lembra uma cruz, símbolo do sofrimento que a Filha carrega e, ao mesmo tempo, o apoio que a suporta.
Ainda há espaço para um instante de pausa e intimidade: «do corpo uma fonte… do teu cabelo um rio». O corpo, palco da dor, transforma-se em algo novo, numa fonte; o lado sensorial da água com vida interior que lava as feridas. O cabelo da Filha, íntimo, frágil, humano, é visto pela Mãe como o movimento belo e fluido de um rio eterno.
Por fim, a filha mostra-lhe que está ferida de morte. A Mãe abraça-a e cantam: «O corpo é um arco que eu toco». Esta Pietá, parece uma dança, um movimento cíclico entre a vida e a morte, um entrelace profundo na dor de ambas. A Mãe abraça o corpo da Filha que acabou de lhe morrer nos braços – esse gesto não é apenas o abraço eterno à Filha, mas um abraço à humanidade inteira.
Data: 2025
Local: Escola Superior de Música de Lisboa
Encomenda: Projeto de investigação IPL/IDI&CA2024/PCM-AE_ESML
Direcção musical: Carlos Marecos
Elenco: Maria João Pacheco, Catarina Martins e ClusterLab XL da Escola Superior de Música de Lisboa