Canto da ocidental praia

1975

Descrição

Libretista: António Victorino d’Almeida
Libreto a partir de excertos da lírica e Os Lusíadas de Luís de Camões
Ópera em 3 actos
Data: 1975
Língua: Português
Grande formato

Personagens

Luiz Vaz de Camões: baixo
Morte: mezzo-soprano
Petrarca: tenor
Dante: baixo
Virgílio: barítono
Beatriz: soprano
Primeira Dama da Corte: soprano
Garcilaso de la Vega: tenor
Adamastor: recitante
Sebastião: tenor
Leonardo: tenor
Jau: actor
Parasito: barítono
Careófilo: tenor
Inquisidor: baixo
Frade:
Pêro de Andrade Caminha:
Ninfa e Rapaz: soprano
Raparigas do bordel: coro
Francisca de Aragão: soprano
Dinamene: soprano
Pedro de Mariz:
Segunda Dama da Corte: soprano
Amigos de Camões: coro
Aias: coro

Sinopse

Ópera em três actos sobre a vida de Luís de Camões. O primeiro acto aborda as influências literárias e humanistas de Camões e o isolamento ideológico do poeta na sociedade portuguesa quinhentista. Os segundo e terceiro actos são de carácter biográfico. O segundo acto acompanha a vida de Camões desde os tempos de Coimbra e o contacto com a obra de Pretarca e Virgílio, o estabelecimento em Lisboa e aproximação à Corte, até à prisão e ida para a Índia. O terceiro acto inicia-se com o naufrágio em que Dinamene morre, relatando depois o regresso de Camões a Portugal, a publicação de Os Lusíadas e a indiferença da sociedade à obra de Camões; a ópera termina com a morte de Camões, abandonado por todos, à excepção de Jau.

Instrumentação

7 S | Mz | 5 T | 2 Bar | 3 B + 3 Solistas + Actor + Rec + Coro + Orquestra

Sobre a Obra

A história de Canto da ocidental praia é um testemunho do ambiente político, cultural e social do período final do Estado Novo e da transição para a democracia. Foi encomendada pela RTP em 1973, por intermédio do maestro Manuel Ivo Cruz, para ser filmada e exibida em televisão. Porém, o projecto não se concretizou e seria João de Freitas Branco, na direcção do Teatro Nacional de São Carlos, a sugerir a sua apresentação em palco. Contudo, também esta não se realizou, porque a PIDE apreendeu os programas na tipografia, e a produção invocou motivos de ordem técnica para cancelar o espectáculo. Nas palavras do compositor, a intromissão da polícia política acabou por ser benéfica, pois a acumulação de problemas com a falta de ensaios e dificuldades na encenação antecipavam uma estreia desastrosa.¹ A ópera estreou, enfim, a 10 de Junho de 1975, dia de Camões, por proposta de João Paes, então director do Teatro Nacional de São Carlos, e apesar de vários percalços durante os ensaios.²

Canto da Ocidental Praia é uma ópera em três actos, com libreto de Victorino d’Almeida a partir de excertos de Os Lusíadas e da lírica camoniana. Contém, também, textos de alguns dos poetas que influenciaram a obra de Camões, como Dante, Petrarca, Virgílio e Garcilaso de la Vega, e excertos de peças de Jorge Ferreira de Vasconcelos, e ainda documentos oficiais da época. O I acto marca o tema da ópera, centrando-se nas «contradições ideológicas» que caracterizaram Camões, conforme explicação do compositor aos microfones da Emissora Nacional, aquando da estreia absoluta. O poeta é representado como uma figura isolada e, no decurso da ópera, crítico das classes dominantes e da sociedade. Como Mário Vieira de Carvalho refere no comentário crítico à ópera, a partir de Camões, Victorino d’Almeida denuncia a «superestrutura ideológica do fascismo e do colonialismo portugueses» e mostra como Camões «tantas vezes invocado como celebrante do «imperialismo» português, se afirmava afinal contra as classes dominantes e a sua ideologia, ao mesmo tempo que era por estas violentado.»³ O segundo e terceiro actos são de carácter biográfico e seguem episódios da vida de Camões, cronologicamente. A ópera termina com a sua morte, seguido de um quadro final em que a biografia com factos alterados é apregoada. No segundo acto, ao ser evocado um texto do século XVI sobre o impacto da Inquisição na época e, em particular, na edição de livros em Portugal, é pedido um minuto de silêncio pelas vítimas da censura, gesto bastante sentido em 1975 e que contribuiu para a carga política da ópera e para a sua recepção. A reacção do público não foi unânime, sendo bastante audível na gravação conservada no Arquivos RTP os aplausos e aclamações assim como os apupos.Este pormenor foi também assinalado e comentado na crítica escrita por Mário Vieira de Carvalho, que o entende como um critério estético.

Canto da ocidental praia teve estreia absoluta no Teatro Nacional de São Carlos e a récita foi transmitida em directo pela Emissora Nacional. Para apresentação da ópera, realizou-se uma reunião com a comunicação social dias antes da sua estreia promovida por alguns dos protagonistas da sua produção. Seguiram-se récitas no Coliseu dos Recreios (Lisboa) e no Coliseu do Porto, tendo esta última também sido transmitida em directo pela RTP, de que sobrevive o registo audiovisual. Terá sido manifestado interesse em apresentar a ópera em Barcelona.

Estreia

Data: 1975
Local: Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa
Direcção musical: Joaquim Silva Pereira
Encenação: Conny Hanes Meyer
Elenco: Álvaro Malta, Dulce Cabrita, João Rosa, Carlos Fonseca, António Saraiva, Elizete Bayan, Fernando Serafim, Jorge Trincheiras, Armando Guerreiro, Oliveira Lopes, João Pessanha, Manuel de Almeida, Joaquim Azinheira, Joaquim Correia, Manuel dos Santos, Maria da Rosa, Maria Ramos, Palmira Viegas, Irene Fernandes, Maria Alice Lourenço, Elsa Saque, Beatriz Horta, Manuela Piçarra, Carlos Alberto Lourenço, Sara Rosa, Orquestra Filarmónica de Lisboa e Coro do Teatro Nacional de São Carlos

Partituras & Mais Informações

Referências

  1. António Victorino d’Almeida, Ao princípio era eu – Autobiografia (Clube do Autor, 2010), 570.
  2. d’Almeida, Ao princípio era eu – Autobiografia, 591-593.
  3. Mário Vieira de Carvalho, «Ontem no S. Carlos: Aplausos e pateada para Vitorino de Almeida», Diário de Lisboa, Junho 11, 1975, 14.
  4. António Victorino d’Almeida, Canto da Ocidental Praia – III acto, Arquivos RTP, 1975, áudio, https://arquivos.rtp.pt/conteudos/o-canto-da-ocidental-praia-iii-acto/
  5. d’Almeida, Canto da Ocidental Praia – I acto