Das Märchen

2007

Descrição

Compositor:

Libretista: Emmanuel Nunes
Libreto a partir de Das Märchen de Goethe
Ópera simbolista em 1 prólogo e 2 actos
Data: 2007
Duração: 3h 40 minutos
Língua: Alemão
Grande formato

Personagens

Lilia: soprano
Serpente: soprano
Fogo fátuo I/ Rei IV/A Velha: contratenor
Fogo fátuo II/ Rei II/Príncipe: tenor
Barqueiro/O Homem: baixo
Rei I: baixo
Rei III: tenor
Homem com a Lâmpada: baixo
A Velha: contralto

Sinopse

Ópera simbolista em um prólogo e dois actos. O prólogo alude ao poder da imaginação, como preparação do que se encontra no conto fantástico de Goethe em que se baseia. Nesta obra, cruzam-se o Barqueiro e os Fogos Fátuos, a Serpente Verde que engole as moedas de ouro dadas por estes como pagamento pela travessia do rio e que a torna incandescente, o Homem com a Lâmpada e os quatro Reis que residem no Templo Subterrâneo, a Mulher Velha, a bela Lilia, personagem com poderes mágicos e condenada a matar quem nela tocar, e o Príncipe por ela apaixonado.  A história desenrola-se em torno da travessia do rio, que representa a divisão entre os diferentes mundos, e a união das várias personagens para ultrapassarem os desafios que se colocam. O libreto termina com o sacrifício da Serpente, transformada em pedras preciosas por Lilia, que são depois usadas na construção de uma ponte que une as duas margens do rio. O primeiro acto intitula-se «Jogo dos elementos» e o segundo acto «As metamorfoses».

Instrumentação

2 S | A | Ct | 2 T | 2 B + Coro + 5 Actores + Bailarinos + 4 Fl | 4 Ob (2 C ingl) | 4 Cl | 2 Bcl | 2 Fg | 6 Hn | 3 Tpt | 3 Tbn | 1 Euf | 2 Hp | 6 Perc | Electr/MIDI | Keyb/Synth | Vln | Vla | Vc | Cb
Editora: G. Ricordi & Co.

Sobre a Obra

Ópera em dois actos com música e libreto de Emmanuel Nunes a partir de O Conto ou O Conto da serpente verde, de Johann Wolfgang von Goethe. O interesse por este texto de carácter simbólico remonta à década de 1970, quando Nunes o leu e o estudo de Yvette Centeno, A Simbologia alquímica no conto da Serpente Verde de Goethe (1976). Trabalhou intermitentemente na escrita do libreto e da música, até à sua concretização final em 2008. A ópera resultou de uma parceria entre a Fundação Calouste Gulbenkian, a Casa da Música e o Teatro Nacional de São Carlos, com co-produção do Ircam-Centre Pompidou.

Tratou-se de um projecto megalómano, não só pelo dispositivo orquestral e cénico envolvido, como também pela opção de transmitir em directo a estreia em diferentes teatros em Ponte de Lima, Porto, Vila Flor, Aveiro, Coimbra, Castelo Branco, Leiria, Torres Novas, Portalegre, Estremoz, Beja, Faro, Açores e Madeira. Porém, a iniciativa de descentralização da cultura não alcançou os objectivos pretendidos e relatos da comunicação social centraram-se no número de espectadores que, no decurso da noite, abandonaram a récita¹. O balanço final foi dispar: se da parte da produção se fez um balanço positivo, mesmo considerando o abandono do público, diversas figuras viram no comportamento deste um sinal do fracasso da iniciativa, responsabilizando a escolha de uma obra contemporânea e de linguagem musical difícil e a falta de trabalho prévio de preparação dos ouvintes². A produção complexa e circunstâncias extrínsecas sobrepuseram-se à música e a recepção da ópera foi muito marcada pelos debates políticos e institucionais que a rodearam. As tensões entre a Secretaria de Estado de Cultura e a Direcção do Teatro Nacional de São Carlos, que levaram à não recondução de Paolo Pinamonti na direcção, e declarações públicas de Nunes a favor da exoneração do director, desagradado com a retirada da ópera da programação do teatro em anos anteriores, devido a atrasos na sua conclusão, provocaram uma certa animosidade logo à partida em relação à obra que se ia estrear. Na análise de Pedro Amaral, que considera a obra admirável, apesar de certos problemas, é apontado que a encenação, a cargo de Karoline Gruber, mostrou-se desajustada em transmitir a profundidade musical da obra. Para além disso, os meios instrumentais que a obra exige implicaram a dispersão de alguns instrumentos em salas adjacentes do Teatro Nacional de São Carlos e sua transmissão por altifalantes na sala principal, o que prejudicou a audição³.

Apesar das circunstâncias que dominaram a sua recepção, trata-se de uma obra relevante e significativa do estilo de Nunes. A ópera estrutura-se em um prólogo e dois actos e incorpora referências simbólicas através de uma densa rede de referências internas e a orquestração. Segundo Laurent Feneyrou, «[g]iven the importance of the number three to Goethe’s tale, Nunes extends it through three levels in the opera: choreographic, theatrical, and musical. It has, then, an affinity with Mozart’s The Magic Flute, where the number three also plays a major structural role. Rather than remaining on the level of philosophical abstraction, the number three permeates the opera’s imagery.»

A ópera teve três récitas em Lisboa (25, 27 e 29 de Janeiro; apenas a primeira foi transmitida para os teatros regionais).

Estreia

Data: 2008
Local: Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa
Encomenda: Fundação Calouste Gulbenkian, Casa da Música, Teatro Nacional de São Carlos e Ircam-Centre Pompidou
Encenação: Karoline Gruber
Direcção musical: Peter Rundel
Elenco: Chelsey Schill, Silja Schindler, Matthias Hoelle, Andrew Watts, Graciela Araya, Musa Duke Nkuna, Philip Sheffield, Dieter Schweikart, Luís Rodrigues, Joana Barrios, Anna Katharina Rusche, Beate-Christa Kopp, Tilo Wagner, Richard Jaeckle, Remix Ensemble e Orquestra Sinfónica Portuguesa e Coro do Teatro Nacional de São Carlos

Referências

  1. Sérgio Andrade, «Ópera Das Märchen de Emmanuel Nunes encheu (e esvaziou) teatro por todo o país», Público, Janeiro 29, 2008; André Graça, «Das Märchen, de Emmanuel Nunes: recepção pública e crítica especializada em torno de uma estreia polémica», Actas do I Encontro Ibero-americano de Jovens Musicólogos, 2012, pp. 110-125. https://www.academia.edu/1256584/_Das_M%C3%A4rchen_de_Emmanuel_Nunes_recep%C3%A7%C3%A3o_p%C3%BAblica_e_cr%C3%ADtica_especializada_em_torno_de_uma_estreia_pol%C3%A9mica; Pedro Boléo, «Metade do público abandonou a ópera de Emmanuel Nunes na estreia no Teatro de São Carlos», Público, Janeiro 27, 2008.
  2. Pedro Amaral, «Das Märchen», O Véu diáfano, Antena 2, Junho 10, 2012, áudio, 01:10.23, https://arquivos.rtp.pt/conteudos/opera-das-marchen-de-emanuel-nunes/
  3. Laurent Feneyrou, «Survey of works by Emmanuel Nunes», IRCAM-Centre Pompidou, 2007, https://ressources.ircam.fr/en/composer/emmanuel-nunes/workcourse
  4. Feneyrou, «Survey of works by Emmanuel Nunes»