Libretista: Pedro de Lima
Libreto baseado no romance Eurico, o Presbítero de Carteia de Alexandre Herculano
Dramma lírico em 4 actos (rev. 3 actos)
Data: 1870
Língua: Italiano (tradução italiana de autor anónimo)
Eurico: tenor
Hermengarda: soprano
Pelágio: barítono
Abdul-Aziz: baixo
Abdalah: contralto
Opas: baixo
Conde Juliano: baixo
Astrimiro: tenor
Velido: baixo
Coro
«O enredo decorre na Espanha do século VII. Eurico, um gardingo (casta inferior da nobreza visigoda) sem fortuna, fora impedido de casar com Hermengarda filha de Fávila, rei das Astúrias. Dedicou-se então à vida eclesiástica, tornando-se presbítero em Carteia, nos arredores de Gibraltar. Durante as invasões árabes é notório, entre a facção cristã, o heroísmo de um cavaleiro negro cuja identidade é desconhecida. É ele que irá salvar Hermengarda, entretanto presa pelos mouros e em riscos de ser seduzida pelo emir Abdul-Aziz. É em Covadonga, onde está Hermengarda, que os árabes sofrem a primeira derrota. O cavaleiro negro identifica-se a Hermengarda e esta, apaixonada, pede-lhe que case com ela. Relembrando-se da sua condição de sacerdote, Eurico foge encontrando a morte numa luta com os últimos fugitivos do exército mouro. Hermengarda enlouquece».¹
Orquestra²
A ópera Eurico, de Miguel Ângelo Pereira, baseada no romance histórico Eurico, o presbytero de Alexandre Herculano, estreou no Teatro de São Carlos em fevereiro de 1870, e foi inicialmente recebida com alguma hostilidade pelo público e pela crítica – o próprio Herculano, por exemplo, escreveu a um amigo que: «…pouco me admira que caísse […]. Concluo de tudo que o rapaz pode vir a fazer alguma coisa, e que as causas da queda foram duas: 1ª inexperiência do teatro no compositor e no libretista, 2º má execução dos artistas»³. Por seu turno, o jovem intelectual Jaime Batalha Reis, escreveu, na noite de estreia, que a ópera «não agradou nada e tiveram razão. Foi uma queda memorável, com pateada, gargalhadas. Coitado, fez-me mudo»⁴.
O insucesso marcou profundamente o jovem compositor, que viria a rever a obra e a promovê-la em novas apresentações no Porto (1874) e no Rio de Janeiro (1878) – na primeira destas cidades, a nova versão da obra «obteve um calorosíssimo triunfo» e na segunda «relativo sucesso»⁵. Desde a estreia, Eurico foi percebida como uma obra distinta do repertório operático italiano dominante em Portugal, sendo frequentemente associada a uma conceção mais sinfónica e austera, próxima da música germânica, muito embora se inclinasse mais para influências francesas⁶. Apesar de a partitura completa se ter perdido, a obra permanece como um marco decisivo na história da ópera portuguesa oitocentista. Com libreto fiel ao texto de Herculano, Eurico privilegia a profundidade dramática, a criação de ambientes históricos e o uso de motivos recorrentes, afastando-se das convenções formais italiana e do que, até à sua estreia, havia sido a prática dos compositores nacionais: «acentua-se o investimento na construção de «cores locais» (os ambientes cristãos ou orientais) e num uso consistente de motivos recorrentes para a caracterização das personagens principais; as velhas convenções formais italianas são abandonadas e as linhas melódicas despem-se de artifícios ornamentais»⁷.
Data: 1870
Local: Teatro de São Carlos, Lisboa
Direcção musical: Guilherme Cossoul
Elenco: Amália Fossa, Demerich Lablache, Giulio Ugolini, Luigi Merly, Reduzzi, Lisboa e Orquestra do Teatro de São Carlos⁸