Libretista: Alexandre Delgado
Libreto a partir da peça homónima de Luís de Sttau Monteiro
Ópera em 2 actos
Data: 2024
Língua: Português
Duração: 90 minutos
Grande formato
D. Miguel Forjaz: barítono
Principal Sousa: tenor
Beresford: baixo-barítono
Vicente: tenor
Matilde de Melo: soprano dramático
António de Sousa Falcão: barítono
Mulher do Povo: soprano lírico
Antigo Soldado: barítono
Polícia/Críado/Sacristão: actor
Coro de Populares: coro
Acto I
A acção decorre em Lisboa em 1817. Um grupo de populares está reunido, lamentando a sua situação difícil e lembrando as canções do regimento do general Gomes Freire de Andrade, que consideram um defensor do povo.
Enquanto isso, os governadores do Reino — D. Miguel Forjaz, o Principal Sousa e o Marechal Beresford — reúnem-se preocupados com rumores de uma conspiração e revolução associada ao general Gomes Freire. Decidem que precisam de crucificar alguém para servir de exemplo.
Um informador, Vicente, espia uma reunião suspeita em casa do general e avisa os governantes. Estes vêem Gomes Freire como uma ameaça capaz de destruir a ordem estabelecida por falar ao povo. Resolvem então escolhê-lo para condenar, de modo a aniquilar as sementes da anarquia.
Este acto retrata bem um momento de convulsão social e política, com o povo descontente e rumores de revolução, que levam o poder vigente a procurar um bode expiatório para condenar. O general Gomes Freire surge como uma figura querida do povo, mas temida pelos governantes.
Acto II
O povo comenta que prenderam o general Gomes Freire, acabando com a esperança de mudança. Matilde, mulher do general, lamenta o destino dos homens justos e leais num mundo de hipocrisia e injustiça.
António de Sousa Falcão, amigo de Gomes Freire, diz que o general sempre foi uma ameaça para o poder vigente por expor as suas falhas. Matilde pede clemência ao Marechal Beresford, mas este recusa, afirmando que a mera existência de certos homens é um crime.
Uma mulher do povo consola Matilde. Sousa Falcão traz notícias do general na prisão, em más condições. Matilde tenta apelar a D. Miguel Forjaz e ao Principal Sousa, mas rejeitada, acusada de ser amante de um traidor. O Principal Sousa agradece a Deus a captura dos revolucionários.
Matilde enfrenta o Principal Sousa, acusando-o de condenar inocentes, dar esmola, mas enforcar quem defende os pobres, vendendo Jesus por poder. Diz-lhe que morrerá ensurdecido por pragas.
O povo comenta que vão enforcar e queimar o general. Lançando as cinzas ao mar. D. Miguel Forjaz afirma que o cheiro a carne assada ficará na memória de quem pensar em revoltas.
Sousa Falcão lamenta ao pé da fogueira não ter tido a coragem de Gomes Freire para lutar na linha da frente. Matilde, vestida com uma saia verde, imagina o general vindo abraçá-la e despedir-se. Perante o clarão da fogueira, Matilde diz que aquilo é um começo, não um fim, e que aquela luz dará esperança e iluminará a terra inteira, porque «até chegar o dia, felizmente há luar». Todos se juntam a este canto de esperança.
2 Fl | 2 Ob | 2 Cl | 2 Fg | 2 Hn | 2 Tpt | Tbn | Hp | 2 Perc | Vln | Vla | Vc | Cb
Em 2011, quando Joaquim Benite encenou a minha ópera A Rainha Louca, lançou-me o desafio de compor uma ópera sobre o meu avô, Humberto Delgado, mas eu disse-lhe que não seria capaz, por ser um assunto demasiado pessoal (tinha cinco meses de gestação quando a minha mãe soube que o seu pai tinha sido assassinado.)
Em 2022, Osvaldo Ferreira lançou-me outro desafio: compor uma ópera sobre o 25 de Abril, para comemorar os 50 anos da Revolução. Inicialmente hesitei, por achar o tema pouco operático e por não conhecer nenhum texto teatral interessante sobre o assunto. Mas depois lembrei-me da peça de Luís de Sttau Monteiro, que eu tinha ideia de ser inspirada pela figura do meu avô.
Para compor uma ópera, preciso de uma história palpitante, com protagonistas de carne e osso e de preferência que conjugue o cómico e o trágico. Foi precisamente isso que encontrei ao reler Felizmente Há Luar, peça histórica sobre a condenação à morte do general Gomes Freire, acusado de conspirar contra o regime absolutista, em 1817.
A peça foi escrita a seguir às eleições presidenciais de 1958, no mesmo ano em que começou a guerra colonial (1961); um ano depois, começava a revolta estudantil. Sttau Monteiro dedicou-a «ao Fernando de Abranches Ferrão, que quase me obrigou a escrever esta peça.» Abranches Ferrão foi o advogado de vários perseguidos do regime, entre os quais Humberto Delgado, no processo disciplinar que lhe foi instaurado após as eleições. Depois do assassinato do meu avô e da sua secretária em fevereiro de 1965, foi advogado da família, juntamente com Mário Soares.
Publicada em 1961, a peça foi aclamada pela crítica e valeu a Sttau Monteiro o Grande Prémio do Teatro da Sociedade Portuguesa de Autores. Vasco Morgado quis encená-la no Monumental, Amélia Rey-Colaço no Teatro Nacional e António Pedro no Teatro Experimental do Porto, mas a censura não autorizou. O livro teve sete edições antes do 25 de Abril, mas a peça, estreada em Paris em 1969, só pôde ser representada em Portugal após a Revolução. Foi levada à cena em 1975 no Teatro Ensaio do Barreiro e em 1978 no Teatro Nacional D. Maria II, com encenação do autor.
Sttau Monteiro (1926-1993) era um misto de bon vivant e enfant terrible. Oriundo de uma família tradicional, tinha um desprezo absoluto pelo regime de Salazar, mas não se envolveu em ações políticas. Formado em direito, trabalhou sobretudo como jornalista e escritor. O seu primeiro romance, Angústia para o Jantar, foi publicado no mesmo ano que Felizmente Há Luar, 1961.
Sttau Monteiro chegou a estar preso em 1967, por causa de duas peças de cunho satírico: A Guerra Santa e A Estátua. Numa entrevista que deu perto do fim da vida, dizia ele ao JL que «ao contrário do que se possa pensar, eu não tinha nenhuma intenção política ao escrever [Felizmente Há Luar]» (o que é mentira). Mas acrescentava: «Foi uma espécie de espirro contra tudo o que irritava, então, em Portugal: a torpeza, a sacanice, a cobardia dos que se acomodam.»
Certo é que a peça está recheada de alusões ao Portugal do Estado Novo, no contexto pós-eleições de 58, só podendo ser vista como um libelo contra a ditadura. A menção permanente ao General, que o povo vê como salvador e os governantes vêm como ameaça, tinha uma leitura política evidente depois das gigantescas manifestações de apoio a Humberto Delgado, que fizeram tremer o regime. Calcula-se que juntaram um milhão de pessoas no Porto; em Lisboa, a multidão que o aguardava seria ainda maior, mas foi dispersada pela GNR. O seu exílio no Rio de Janeiro, em abril de 1959, foi notícia em todo o mundo.
Um dos achados da peça é que o protagonista está ausente: Gomes Freire, de quem se fala do princípio ao fim da peça, nunca aparece em cena. Mártir da liberdade, é hoje menos recordado do que merece. Filho de um embaixador português e de uma condessa alemã, Gomes Freire nasceu em 1757 em Viena, de onde veio para Portugal aos 24 anos. Militar brilhante, teve longas missões no estrangeiro, nomeadamente na Rússia (ao serviço de Catarina a Grande) e na Catalunha. Entrou para a Maçonaria em Viena — na mesma loja que Mozart — e foi um dos fundadores do Grande Oriente Lusitano, em 1802. Reconhecido pela bravura, foi várias vezes condecorado, mas era visto como rebelde e impulsivo, além de inclinado para os ideais da Revolução Francesa, o que o tornou detestado pelo regime absolutista. Em 1817, no rescaldo das invasões francesas e com D. João VI no Brasil, Portugal era regido por um «Conselho Regente», um triunvirato que juntava o exército, a igreja e a nobreza, representados respetivamente pelo Marechal Beresford, pelo Principal Sousa e por D. Miguel Forjaz. Perante os sinais de revolta que havia no ar, decidiram encontrar um bode expiatório e Gomes Freire foi preso em maio. Após uma farsa de julgamento em que nada ficou provado, a 18 de outubro foi enforcado, queimado e lançado ao mar no forte de São Julião da Barra, em Oeiras, enquanto outros onze oficiais do exército eram executados em Lisboa naquele que é hoje chamado, em sua memória, Campo dos Mártires da Pátria.
Gomes Freire e Humberto Delgado têm muito em comum, para além do facto de ambos terem sido assassinados pelo Estado por defenderem a liberdade. A maneira como Sttau Monteiro descreve Gomes Freire, na peça, assemelha-se às descrições habituais de Humberto Delgado: lúcido, inteligente, exemplar como soldado, frontal e destemido, impulsivo, temerário.
A imagem que Sttau Monteiro dá do povo é algo cínica e descrente da sua bondade. Manuel, que a didascália define como «o mais consciente dos populares», é um personagem odioso, que suprimi, embora tenha aproveitado algumas das suas falas para as muitas que criei para o coro, personagem coletivo que era crucial para a ópera. A sua mulher, Rita, converteu-se na figura da Mulher do Povo, que representa, juntamente com o Antigo Soldado, a face mais humana do povo anónimo. Evitando o excesso de papéis secundários que há na peça, excluí o segundo informador, dois dos polícias e o padre confessor, mantendo apenas um polícia, um criado e um sacristão que podem ser representados por um actor/figurante.
Mantive a estrutura da peça em dois atos muito contrastantes: o primeiro mais político, centrado no trio dos governantes e na busca de um culpado para a revolta; o segundo mais intimista, centrado na mulher de Gomes Freire, Matilde de Melo, e na sua tentativa desesperada de salvar o marido.
Tendo em conta a efeméride do 25 de abril, quis que esta fosse uma ópera para grande público, com melodias capazes de ficar no ouvido, aproximando-me do mundo dos musicais, que no século XX passaram a desempenhar o papel que antes cabia às óperas. Tal como as minhas duas óperas anteriores, Felizmente há Luar está nos antípodas da «melodia contínua» de Wagner, embora recorra abundantemente à técnica do Leitmotiv. É toda dividida em números, com canções, árias, coros, duetos, trios e quartetos. Também tem algumas partes faladas, pouco extensas, que são sempre acompanhadas por música, tipo melodrama.
Fiz o libreto todo em verso e muitas vezes com rima, o que é comum nos musicais, mas quase tabu na ópera contemporânea. Um bom libreto tem de ser conciso para dar espaço à música: uma diferença considerável da ópera em relação ao teatro é que, com pouco texto, gera-se muita música. Não é possível utilizar todo o texto de uma peça de teatro, pois isso tornaria a ópera insuportavelmente longa (não se consegue, nem é desejável, cantar à velocidade a que falamos). Nem tudo se presta a ser cantado e as falas têm que ser enxutas, dizer muito com poucas palavras. Reduzi o texto a cerca de um quinto do original e cortei personagens: eram 16 na peça, são oito na ópera, repartidas num quarteto «mau» — Vicente, (o informador da Pide) e o trio do conselho regente — e num quarteto «bom» — a Mulher do Povo, o Antigo Soldado, Matilde de Melo e António de Sousa Falcão, o melhor amigo de Gomes Freire. Gosto da ideia dos dois quartetos antagónicos, que terminam respetivamente o 1.º ato e o 2.º atos. Deliciou-me o humor com que Sttau Monteiro trata as personagens do Principal Sousa e de Miguel Forjaz. Mas foi especialmente a personagem de Matilde de Melo que me deu vontade de compor a ópera, com a sua grandeza de alma, a sua coragem e, no fim, o seu otimismo, capaz de lançar esse grito de esperança que prenuncia o 25 de abril: «Felizmente há luar!»
(Ante-Estreia)
Data: 2024
Local: Teatro Municipal da Guarda
Encomenda: Orquestra Filarmónica Portuguesa
Encenação: Allex Aguilera
Direcção musical: Osvaldo Ferreira
Elenco: Sílvia Sequeira, Raquel Mendes, Tiago Amado Gomes, Carlos Guilherme, André Henriques, Christian Lujan, Pedro Cruz, Manuel Matos, Tomás Rodrigues, Orquestra Filarmónica Portuguesa e Coro ProART