Libretista: Gerrit Komrij
Data: 2001
Língua: Português e Neerlandês
Duração: 70 minutos
Pequeno formato
Erasmo de Roterdão: baixo
Damião de Góis: 2 barítonos
Simão Rodrigues: tenor
Cardeal Dom Henrique: contratenor
O libreto situa-nos numa época que oscila entre a alquimia e a ciência, entre animais lendários e os descobrimentos portugueses. O mundo antigo ainda existe, mas um mundo novo vem a caminho. As armas, o comércio, a Igreja, o espírito, a imprensa, a cartografia, os caminhos marítimos: tudo mexe na Europa. Um encontro de uma ordem muito especial deu-se, pois, entre Erasmo de Roterdão, vulto europeu de grande envergadura no xadrez político entre o Imperador e o Papa, e Damião de Góis, um jovem cosmopolita de Lisboa que ajudaria a lançar os alicerces do humanismo e da erudição moderna em Portugal. Foi ele quem aí fomentou o culto da pintura renascentista e da polifonia. Era um tempo em que as forças do Renascimento e as forças apoiadas pela Inquisição lutavam impiedosamente.
Acto I
Estamos na corte de Dom Manuel, onde o jovem Damião exulta ao saber que foi escolhido para representar a coroa portuguesa na feitoria da Flandres.
Acto II
Um longo diálogo entre Erasmo e o ainda jovem Damião. O velho filósofo dá-lhe conselhos de mestre, expõe o seu gosto conservador quanto à nova música, corrige o latim defeituoso do jovem português e alerta-o para os perigos da Contra-Reforma.
Acto III
Um Damião já idoso e viúvo, reencontra o seu velho amigo e confidente Cardeal Dom Henrique, que o exorta a ter o maior cuidado com a Inquisição. Damião lamenta a morte da sua mulher, refugiando-se na música. E é justamente por causa da música que ele cultiva em sua casa que se levanta um auto de acusação: as melodias «estranhas» que se ouvem na sua residência e levarão ao processo conduzido pelo padre jesuíta Simão Rodrigues, seu conhecido de juventude, sempre invejoso do sucesso que Damião de Góis tivera no seu percurso. A ópera termina em turbulência, com a prisão do humanista português.
Fl | Ob | Cl | Bcl | Fg | Hn | Tpt | Tbn | Tb | Perc | Pf (synth) | 4 Vln | 2 Vla | 2 Vc | Cb
Melodias Estranhas é uma das poucas óperas portuguesas co-produzidas internacionalmente, com estreia nos Países Baixos, fruto de uma encomenda conjunta da Casa da Música e da Companhia Onafhankelijk Toneel, então dirigida por Mirjam Koen e Gerrit Timmers, responsáveis pela sua encenação. A sinergia aconteceu em 2001, no contexto da iniciativa Capital Europeia da Cultura, que nesse ano distinguiu Roterdão e o Porto com o título. E assinala também o regresso de Chagas Rosa à cidade onde, anos antes, tinha estudado composição.
Numa entrevista à musicóloga Teresa Cascudo, o compositor definiu Melodias Estranhas como «a obra mais difícil, mais complexa e mais laboriosa» que até à data tinha escrito. Em parte, devido ao desafio de musicar um «libreto difícil», que é «mais um drama de ideias do que um drama de acção». Ainda em relação ao libreto, o compositor identifica: «o tema principal é a intolerância e o castigo.» Com efeito, o título remete para uma das muitas acusações que a Inquisição dirigiu a Damião de Góis. Entre suspeitas de heresia e luteranismo, encontram-se nos autos de acusação também referências às composições do humanista português e à música polifónica que gostava de interpretar com amigos, em Lisboa. Damião de Góis viria mesmo a ser preso e condenado no fim da sua vida.
Mas a ideia impulsionadora da ópera «partiu do desejo de se assinalar o encontro entre dois personagens fundamentais do Humanismo: o holandês Erasmo de Roterdão e o português Damião de Góis», diz António Chagas Rosa. Um dos muitos episódios da fascinante vida deste intelectual, diplomata, historiador nascido em Alenquer, que viria a percorrer a Europa e privar com a elite do século XVI.
Em Portugal, a ópera foi apresentada pela primeira vez no Teatro Tivoli, Porto, a 20 de Dezembro, depois da estreia mundial no Onafhankelijk Toneel, em Roterdão, no dia 12 do mesmo mês.
Data: 2001
Local: Rotterdamse Schouwburg, Países Baixos
Encomenda: Casa da Música e Onafhankelijk Toneel
Encenação: Mirjam Koen/Gerrit Timmers
Direcção musical: Stefan Asbury
Elenco: Henk Smit, Hugo Oliveira, Benoît Boutet, David Cordier e Remix Ensemble Casa da Música