Mérope

1959

Descrição

Compositor:

Libretista: Maria José Falcão Trigoso e Joly Braga Santos
Libreto a partir de Almeida Garrett
Ópera em 3 actos
Data: 1959
Língua: Português
Duração: 85 minutos
Grande formato

Personagens

Mérope: soprano
Egisto: tenor
Polifonte: barítono
Polidoro: barítono
Adastro: barítono
Sumo Sacerdote: baixo
Coro

Sinopse

Acto I

A cena única para os três actos tem ao fundo um peristilo de templo, à esquerda um palácio real e à direita um mausuléu.


Um coro de sacerdotes e sacerdotisas dá graças aos céus por terem terminado as desditas em Messénia e implora aos poderes divinos que os protejam. Entra Mérope , ex-rainha, viúva de Cresfonte, o rei que foi assassinado pelo seu irmão Polifonte. Polifonte reina agora sobre Messénia como detestado tirano. Mérope exprime a sua angústia e o seu refúgio é aquele templo, onde está o túmulo do marido, indo sua única esperança para o seu filho Egisto, único sobrevivente da tragédia. O Sumo Sacerdote aproxima-se e dirige a palavra a Mérope, que receia que ele a traia. Vê que conhece o seu segredo: a existência daquele filho, que um servidor fiel conduziu até onde se encontrasse em segurança. O sacerdote tranquiliza-a,  e a ex-rainha conta como foi que o seu filho escapou da morte e partiu a caminho de Élide. Passaram quinze anos desde então.


Aparece Polifonte. Dirige-se a Mérope: «Perdeste o marido e o Reino, consorte e ceptro te ofereço.» Mérope repudia, indignada, a proposta do assassino do marido e dos filhos. O tirano sai, deixando infeliz Mérope, só, com a sua dor profunda.

 

Acto II

Mérope, o Sumo Sacerdote, o tirano Polifonte, séquito e soldados.


Polifonte ordena que prendam e matem o Sacerdote; Mérope intercede por ele, sem conseguir demover o tirano; este alude novamente ao filho de Mérope e volta a propor-lhe casamento, dizendo: «Suspeitei-o há muito, sei-o agora: tens um filho e um meio para o salvar. Mas esse meio é o casamento, e Mérope exclama: Jamais! Entretanto, Polifonte reconsidera e conclui que o Sumo Sacerdote lhe pode ser útil.
Mérope e o Sumo sacerdote  conversam, interrompidos pela inesperada presença de um homem. É Polidoro, o súbdito fiel que salvara a vida do filho de Mérope e com ele partira para Élide. Quando este diz a Mérope que o perdeu de vista e que encontrou o cinto de Cresfonte, no local onde o desconhecido matara um jovem na Élide, Mérope canta: «Junto ao rio, ah, meu filho é morto. Hei-de viver para vingá-lo…»

 

Acto III

Polidoro, o velho aio e o desconhecido que o tirano ardilosamente deixou em liberdade, sob responsabilidade do sacerdote, encontram-se casualmente junto ao túmulo de Cresfonte. O desconhecido é Egisto.


Aproxima-se Mérope com os soldados. Tudo está preparado para sacrificar aquele que ela julga ser o assassino do seu filho. Egisto avança para ela sem receio e mostra-se pronto para aceitar a morte; Mérope sente faltarem-lhe as forças. Chega Polifonte, e é na sua presença que o aio Polidoro revela a identidade do prisioneiro. Mérope, sucumbida, implora ao tirano que a deixe partir em paz com o seu filho. Polifonte fala em segredo aos seus guardas e Egisto é levado por estes.
Através do aio Polidoro e do Sacerdote  sabe-se que se prepara o casamento do tirano com Mérope, o único preço pelo qual a mãe conseguirá salvar o filho da morte.


No altar, durante os juramentos solenes, Polifonte é apunhalado por Egisto e morre. Alguns soldados ainda tentam prender Egisto, mas são subjugados pela multidão que aclama o novo e legítimo rei.

Instrumentação

3 Fl | 3 Ob | 3 Cl | 3 Fg | 4 Hn | 3 Tpt | 3 Tbn | Tb | 4 Perc | 2 Hp | Cel | Vln | Vla | Vc | Cb

Sobre a Obra

«Mérope não é uma obra perfeita, sendo no entanto, se não estamos em erro, a melhor ópera portuguesa dos últimos cem anos, ou mais»¹ – escreveu o crítico e musicólogo João de Freitas Branco, sobre a estreia da ópera de Joly Braga Santos, que encerrou a temporada lírica do Teatro Nacional São Carlos nos dias 15 e 17 de Maio de 1959. Tratava-se, segundo Freitas Branco, próximo de Braga Santos, de uma data «histórica, no capítulo da arte operática» em Portugal. Talvez apenas superada pelo próprio Braga Santos, cerca de dez anos depois, com  A Trilogia das Barcas.


Foi em Itália, em 1957, que o compositor recuperou a ideia de escrever uma versão operática da história mitológica de Mérope, a Rainha da Messénia, a partir da peça escrita por um jovem Almeida Garrett, com apenas dezoito, mais de um século antes. Nesse ano, tinha recebido uma segunda bolsa do Instituto de Alta Cultura, que lhe permitiu, juntamente com a sua esposa, a soprano Maria José Falcão Trigoso, estudar em Roma (onde travou amizade com Jorge Peixinho, também bolseiro a partir de 1960). Inspirado pelas leituras das Méropes de Alfieri e Mafei e dos Scritti e pensieri sulla musica (1906) do compositor Ferruccio Busoni – como o próprio diria numa carta – debruça-se sobre a peça do dramaturgo português.


Segundo o musicólogo Edward Ayres d’Abreu, a escolha sobre este texto permitia o duplo objectivo de explorar um tema clássico e homenagear uma figura maior da cultura portuguesa, como Garrett. Além disso, era um novo passo na tentativa da criação de um género musical-teatral, inspirado pelos ideais clássicos. O próprio Braga Santos, numa entrevista que antecipa a estreia da ópera, identifica Mérope como um ponto de viragem no seu estilo de composição, que seria harmonicamente mais contrastante, com maior recurso à dissonância e à politonalidade.


Não obstante, tanto Alexandre Delgado como Edward Ayres d’Abreu consideram que grosso modo, a «gramática musical» é a mesma do Joly Braga Santos das primeiras sinfonias ou de Viver ou Morrer, «notando-se apenas uma renovada (mas pontual) vontade de explorar dissonâncias, aqui no estrito exercício de vincar, programaticamente, momentos de tensão, e assim colorindo o todo modal com alguns apontamentos associáveis à ideia de politonalidade.» Razão pela qual, Mérope «pode mesmo ser ouvida enquanto testemunho eloquente de como, apesar dos seus estudos no estrangeiro (com Hermann Scherchen, 1948, de novo com Scherchen e ainda com Giulio Mortari e Godofredo Petrassi entre 1957 e 1961), se mantinha Braga Santos, ainda em 1959, profundamente céptico e conservador face às novidades técnicas internacionais das últimas décadas e resolutamente próximo do ideário estético com que se formou e de que se considerava herdeiro».²


Maria José Falcão Trigoso adaptou o libreto, reduzindo os cinco actos da peça de Garrett para apenas três. Depois de estreada, a ópera nunca mais foi levada à cena.

Estreia

Data: 1959
Local: Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa
Encenação: Eurico Lisboa Filho
Direcção musical: Joly Braga Santos
Elenco: Natália Viana, Armando Guerreiro, Hugo Casaes, Luís França, Manuel Leitão, Álvaro Malta, Coro do Teatro Nacional de São Carlos e Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional

Referências

  1. João de Freitas Branco. «Crónica Musical – A ópera Mérope de Joly Braga Santos – O 3.º Festival Gulbenkian de Música.» Colóquio – Revista de artes e letras 4 (07/1959): 53-57.
  2. Edward Ayres de Abreu, «Os “autos com barcas” de Gil Vicente enquanto ópera – Análise de propriedades significantes nos Auto da barca do inferno (1944) e Auto da barca da glória (1970) de Ruy Coelho e na Trilogia das barcas (1969) de Joly Braga Santos», Tese de Doutoramento em Ciências Musicais — Ciências Musicais Históricas (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2022): 93.