Libretista: Alexandre Delgado
Libreto a partir da farsa homónima de Raul Brandão
Ópera de câmara em 1 acto
Data: 1993
Língua: Português
Duração: 30 minutos
Pequeno formato
Governador Civil: tenor
Nunes: actor
Senhor Milhões: barítono
Aninhas: mezzo-soprano
O libreto baseia-se na farsa homónima de Raul Brandão, estreada no Teatro Avenida, em Lisboa, em 1927. Nessa peça, a loucura resulta do excesso de lucidez perante a injustiça do mundo: Raul Brandão (1867-1930) partiu de uma ocorrência burlesca para lhe encontrar uma essência metafísica e trágica. Um Governador Civil é visitado pelo Senhor Milhões, o homem mais rico de Portugal, que traz consigo uma caixa que diz conter o mais poderoso dos explosivos, com o qual causará uma hecatombe dentro de vinte minutos; fala de injustiça e do absurdo da vida, enquanto o Governador é abandonado por todos, incluindo a sua mulher, Aninhas, sendo levado ao cúmulo da humilhação e do ridículo. Após um desabafo de desesperada lucidez, Milhões está prestes a fazer explodir a bomba, quando entram dois enfermeiros e um deles mostra que a caixa só contém algodão; o Senhor Milhões fugiu de um hospício.
A música procura espoletar o grão de loucura contido no texto, explorando musicalmente as peculiaridades fonéticas da língua portuguesa e as entoações ditadas pela psicologia das personagens e pelas situações. Com três cantores e nove instrumentos, esta ópera tem um prólogo instrumental que representa «o caos do mundo» e apresenta os quatro temas de base da obra, depois explorados em oito variações de diferentes durações, e revisitados freneticamente no epílogo. Cada variação opõe dois grupos de instrumentos, sempre diferentes, num percurso de tese, antítese e síntese. O nervosismo crescente do Governador perante a iminência da explosão do «peróxido de azoto» traduz-se num acelerando gradual que só tem recuo nos dois momentos lentos em que o Senhor Milhões revela o que lhe vai realmente na alma, para atingir o paroxismo da velocidade no epílogo, quando a bomba está prestes a explodir.
No Prólogo (o «caos do mundo»), o quarteto de sopros (flauta contralto, clarinete, clarinete baixo e contrafagote) opõe-se ao quarteto de cordas (violino, violeta, violoncelo e contrabaixo). Cada instrumento entra em cena com um tipo de obsessão particular, sendo o tema inicial, apresentado pelo clarinete solo, o tema principal, do qual derivam todos os outros. Quando os oito instrumentos se ouvem em simultâneo, o clarinete faz com que todos se calem e conduz à 1.ª Variação.
O Governador (tenor) está no seu gabinete, a compor uma ópera (em que plageia O Trovador de Verdi). Dá instruções a Nunes (um polícia) para não ser interrompido. Cordas e sopros vão-se alternando em frases cada vez mais sintéticas. O Governador, ao ser interrompido por Nunes, reage com fúria e os dois grupos de instrumentos sobrepõem-se, gerando um caos sonoro.
Ao ouvir-se o nome do Senhor Milhões, a música é cortada por um glissando ascendente do cravo, primeira intervenção desse instrumento que não pertence a nenhum dos grupos anteriores e representa a sabedoria de outro mundo, o mundo do Senhor Milhões.
A 2.ª Variação decorre ao som dum perpetuum mobile do cravo, a que se vão juntando os outros instrumentos, à exceção do contrabaixo. O Governador queixa-se de ser um génio incompreendido num país que é «uma selva». Ao perceber que o visitante vem recomendado com uma carta do Primeiro-Ministro, ordena a Nunes que o mande entrar e exulta num final valsante.
Os pizzicatos do contrabaixo surgem associados à entrada do Senhor Milhões (barítono), dando início à 3.ª Variação. Em ambiente jazzístico, o violoncelo junta-se-lhe depois. O Sr. Milhões entra, acompanhado da sua caixa, e faz a ligação com um fio elétrico até à campainha da mesa do governador. A flauta e o clarinete pontuam as suas explicações sobre o peróxido de azoto e a explosão que se avizinha. À medida que o Governador vai ficando nervoso, os dois grupos misturam-se e as frases descontraídas do Senhor Milhões contrastam com os gaguejos do Governador, que tenta chamar Nunes. A entrada do polícia coincide com uma coda frenética: o Governador sussurra-lhe o que se passa e diz-lhe a frase que lhe servirá de sinal para que Nunes e os outros polícias venham agarrar o Senhor Milhões («O Senhor não ouve tocar lá em cima?»). O polícia retira-se de olhos arregalados. O Senhor Milhões diz que é “rei, imperador, Deus”, mas o Governador detém-no, dizendo-lhe que ele ainda não se explicou.
Na lenta 4.ª Variação, o Senhor Milhões é acompanhado por cravo e clarinete baixo. Conta que passou a ver o mundo «não como todos o vêem, mas como ele é na realidade». O Governador vai dizendo a frase que combinou com Nunes, sem sucesso. Impaciente, o Senhor Milhões ordena-lhe que se cale. Ao espreitar pela porta, o Governador constata que fugiram todos do edifício. O Senhor Milhões diz que fazendo saltar o globo, suprime os gritos, as injustiças, suprime a morte.
A 5.ª Variação sintetiza o grotesco do Governador: contrafagote, flauta e contrabaixo acompanham a sua defesa da ordem, da lei e das instituições. No extremo oposto, violino, violeta e violoncelo acompanham, flutuantes, a visão do Sr. Milhões do que é a Arte, do que é «ser pulverizado, viajar nas nuvens». No fim, os instrumentos associados ao Governador são «pulverizados».
A entrada abrupta da esposa do Governador, Aninhas (mezzo-soprano), dá início à animada 6.ª Variação, cuja secção inicial opõe o violoncelo e o contrabaixo ao clarinete e ao clarinete baixo. Espantada por ver o edifício deserto, pede ao marido o livro de cheques. O Governador sussurra-lhe o que está a acontecer, mas Aninhas mostra-se incrédula e depois tenta fugir. O marido detém-na, lembrando-lhe que ela sempre dissera que quando ele morresse, ela morria também. Num arioso ao som de pizicatos e fagote, Aninhas declara que nunca lhe disse que morreria como as mulheres da Índia, numa pira; a sua religião é católica. Segue-se um diálogo dos três cantores em que todos os instrumentos e ideias da variação se misturam, final rossiniano que termina com Aninha correndo a chamar por um táxi.
A 7.ª Variação abre com um enorme silêncio: os personagens já não cantam, só falam; o mundo do Governador ficou feito em estilhaços. Três fatias de música pontuam o diálogo: glissandi de harmónicos que imitam as gaivotas numa Lisboa deserta, cromatismos sul ponticello que sugerem a ira do Governador, ruídos vocais que sonorizam a explicação do Senhor Milhões de que «todos os homens que fizeram alguma coisa no mundo, eram doidos.» Quando o Governador lhe pergunta «Mas tu quem és, ó supremo canalha?», ele põe-se de pé, altivo e transfigurado: «Eu sou o Doido! Eu sou a Morte!»
Um glissando cromático e descendente do cravo conduz a um uníssono de toda a orquestra, primeiro uníssono desde o início da ópera. Os nove instrumentos são finalmente reunidos na crucial 8.ª Variação, em que o Senhor Milhões fala mortalmente a sério. O tempo detém-se, durante o seu monólogo visionário. «Vou suprimir a vida, porque a vida mete-me medo.»
No frenético Epílogo voltamos ao registo burlesco: todos os temas da ópera são revisitados e sobrepostos a uma velocidade desenfreada e mecânica. O Governador recusa-se a morrer, mas pede um confessor. Diz que precisa de ir à casa de banho, o outro diz-lhe que faça no outro mundo. Quando o Senhor Milhões toca na campainha, tudo se desmorona: ouve-se uma ambulância (imitada pelo violino) e entram dois enfermeiros, que vêm buscar o Senhor Milhões. Um deles abre a caixa, mostrando que contém algodão. O Senhor Milhões retira-se, depois de cumprimentar com o seu chapéu lustroso. De novo sozinho, o Governador diz a frase que causou escândalo na época: «Ai o grande filho da puta!»
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Editora: Ava Musical Editions
Primeira ópera de Alexandre Delgado, O Doido e a Morte foi uma encomenda de Lisboa 94 – Capital Europeia da Cultura, composta entre julho e dezembro de 1993 e estreada a 9 de Novembro de 1994 no Salão Nobre do Teatro Nacional de São Carlos. Aclamada pelo público e pela crítica, soma dez produções desde 1994 e foi levada à cena também na Alemanha e no Brasil.
Data: novembro de 1994
Local: Salão Nobre do Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa
Encomenda: Lisboa 94 — Capital Europeia da Cultura
Encenação: Pedro Wilson
Direcção musical: Alexandre Delgado
Elenco: Carlos Guilherme, António Wagner Diniz, Ana-Ester Neves, Carlos Gomes, Iwona Saiote, António Saiote, Luís Carvalho, Hughes Kesteman, Ana Mafalda de Castro, Zofia Wocjcicka, Richard Wocjcicka, José Augusto Pereira e Adriano Aguiar