Compositores: Telmo Marques (Acto I), Eugénio Amorim (Acto II), Carlos Azevedo (Acto III), Dimitris Andrikopoulos (Acto IV)
Libretista: Jorge Louraço
Ópera em quatro actos
Data: 2023
Língua: Português
Grande formato
Acto I
José I, o rei embuçado: tenor heróico
Donato Bufão, o Paupério, domador de animais de circo: actor
Padre, capelão, um pouco ébrio: baixo
Mariana Paupério, a matriarca dos Paupério: mezzo-soprano
Brida Paupério, a Paupério mais desabrida: actriz/soprano
Sabina Paupério, a Paupério mais sabida: actriz/soprano
Frida Paupério, a Paupério mais fingida: actriz/mezzo-soprano
João Mudo, o Paupério mudo: actor
Belmiro Enxovia: tenor
Federica Ricci, parteira improvisada: soprano
Salvador Ricardo, esposo de Federica: barítono
Acto II
Marianinha Ricardo, cantora, neta de Mariana Ricardo: soprano
Vittorio Ricci, cantor, bisneto de Federica e Salvador: tenor
Mariano Neto, ator, neto de Mariano Paupério: barítono
Visconde, brasileiro de Torna-Viagem: baixo-barítono
Margarida Ricardo, gémea de Rosa, prima de Marianinha: soprano
Rosa Ricardo, gémea de Margarida, viúva, prima de Marianinha: mezzo-soprano
Libéria, gémea de Camélia, bisneta de Mariana Paupério: actriz
Ilda Pulga, modelo do busto da República: actriz
Fotógrafa: actriz
Cego: actor
Camélia: actriz
Acto III
Vítor Mariano, realizador: barítono
Tânia Paupério, gémea de Vânia, modelo e actriz: soprano
Vânia Paupério, gémea de Tânia, modelo e actriz: soprano
Zézinha Paupério, modelo e actriz, muito parecida com Joana: soprano
Milu Ricci, cantora da Rádio: soprano
Pêpe Ricardo, playboy e actor: tenor
Ana Ricardo, gémea de Maria, farmacêutica, mãe de Joana: soprano
Maria Ricci, gémea de Ana, professora, mãe de Sara e Mariana: soprano
Sara Ricci, gémea de Mariana, estudante: soprano
Mariana Ricci, gémea de Sara, estudante: soprano
Joana Ricardo, estudante, parecida com Zézinha: soprano
Tio Mário Magno, produtor: baixo-barítono
Tio Chico, abade franciscano: barítono
Religiosa 1: soprano
Religiosa 2: mezzo-soprano
Religiosa 3: mezzo-soprano
Seminarista: tenor
Cameraman: actor
Acto IV
Frederica: soprano
Palhaços sem Fronteiras: coro
Capacetes Azuis: coro
Acto I: Um teatro em ruínas | Compositor: Telmo Marques
1755 – O terramoto arrasa a Ópera do Tejo. Um dos cantores líricos procura desesperado o seu melhor casaco. Os músicos e cantores chegam para ver tudo arrasado e deparam com um bando de saltimbancos a roubar a roupa que sobra dos guarda-roupas, em especial sapatos, para vender, e as telas dos cenários, para armar as suas tendas. São liderados por uma matriarca, Mariana da Enxovia, visivelmente grávida. O rei, que vinha incógnito para um rendez-vous com a cantora lírica Federica Ricci, fica para avaliar os estragos e promete erguer um novo teatro no mesmo lugar. Entretanto, com o esforço, rebentam as águas de Mariana da Enxovia. Federica, a prima donna, socorre a grávida. São dois gémeos saudáveis. Mas Mariana morre depois do parto. Federica Ricci fica com uma das crianças, e um dos saltimbancos, Donato Paupério, com o outro.
Acto II: Um teatro em chamas | Compositor: Eugênio Amorim
1866 – Na inauguração oficial de um novo teatro de ópera, que leva o nome de Federica Ricci, em homenagem à grande artista do século anterior, estala uma polémica entre republicanos e monárquicos, para grande desgosto de Marianinha, a bisneta de Federica, que, com certo esforço, pois está grávida, mesmo assim fez questão de atuar na cerimónia. Mariano Neto, também descendente de Federica, mas, por outro ramo, tenta subir ao palanque e ler O Enteado do Diabo, uma peça de teatro escrita pelo bisavô. É quando dão pelo incêndio. O teatro não chega a ser usado. No calor da acção, rebentam as águas a Mariana, que dá à luz trigémeas.
Acto III: Um cinema decadente? | Compositor: Carlos Azevedo
1977 – A revolução trouxe a democracia a Portugal, incluindo ao norte do país, conservador e católico. No Cinema São João, toda a família Ricci se junta para assistir à estreia do filme erótico realizado por João Ricci. Lá fora, um grupo de freiras apela ao boicote. A família escandaliza-se ao ver que os mais novos entram no filme como actores e actrizes, e quer impedir a estreia. Logo descobre que aqueles rapazes e raparigas coincidentemente muito parecidos com eles, não são da família Ricci, mas antes da família Paupério. É então que concluem que todos são primos uns dos outros. A estreia é abençoada pela presença de um tio, frade franciscano, pregador da teologia da libertação e da lei do amor acima de todas as coisas.
Acto IV: Um teatro abandonado | Compositor: Dimitris Andrikopoulos
2088 – Num teatro usado para acolher refugiados de guerra, um casal de palhaços, membros dos Palhaços sem Fronteiras, tenta entreter os demais com os mesmos números estafados de sempre, quando chegam um grupo de jornalistas, empurrados pelos Capacetes Azuis, e um grupo de governantes e embaixadores. As mulheres apresentam as suas queixas, mas uma, Federica, está tão revoltada que não diz coisa com coisa. Está aparentemente grávida, o que é difícil de crer, dada a idade adiantada da mulher. Os Capacetes Azuis concluem que é uma bomba e a mulher uma bombista suicida. E é mesmo. O rebento dela explode, rebentando com os gémeos originais e o próprio diabo. Só sobra a memória do teatro.
Fl (Rain Stick) | Ob (Wind Chimes/Shell/Bamboo/Glass) | Cl | Fg | Hn | C Tpt | Tbn | 2 Perc | Vln | Vla | Vc | Cb | Electr
Esta Ópera Real: Repetição do Fim do Mundo foi pensada para juntar no mesmo palco estudantes dos cursos de teatro e de música da ESMAE. Daí o enredo melodramático que opõe dois ramos da mesma família, de um lado os Ricci, ou Ricardo, linhagem de cantores, do outro os Enxovia, ou Paupério, clã de actores. Durante 4 actos, com saltos temporais de exatos 111 anos, acompanhamos as mortes e os nascimentos de membros desta grande família e perdemo-nos no labirinto de parentescos e laços de consanguinidade catastróficos do clã desavindo. O teatro é destruído em cada um dos actos: no acto I, em 1755, por um terremoto; no II, em 1866, por um incêndio; no III, em 1977, pela transformação em cinema de filmes pornográficos; e no IV, em 2088, pela transformação em campo de refugiados. Ficamos então a saber que, devido ao incumprimento de um pacto com o diabo, todo e qualquer membro da família que ponha o pé num palco está destinado a causar a destruição do teatro e, à sua escala, a repetir o fim do mundo. Nos três primeiros actos, o libreto tenta brincar com a história comum do teatro, da música e da ópera; no último, com o espaço cénico transformado num campo de refugiados que poderia ser na Ucrânia, na Síria, numa das costas do Canal da Mancha, em Melilla ou em Odemira, as coisas ficam aparentemente mais sérias. Se não acabou já, o mundo vai mesmo acabar já a seguir, as vezes que for preciso. A fábula começa no início do séc. XVIII, quando Baltasar, um dos dois gémeos de Querubim, vendedor de folhetos de cordel na Lisboa de 1755, e de Mariana, camareira do teatro de ópera, faz um pacto com o diabo para vir a ter um teatro. Enquanto o diabo esfrega um olho, o gémeo Baltasar, armado em espertalhão de costela saloia, assina em nome do irmão, Belmiro, e com isto troca as voltas ao demo. Belmiro nega a pés juntos ter assinado o pacto, mas, por fraternidade, não denuncia o mano Baltasar. Satanás, sem conseguir cobrar a alma quer a um quer a outro, por não saber exatamente qual dos gémeos é qual (de tanto esfregar o olho, vê muito mal, como se sabe), faz uma birra dos demónios e passa a intervir diretamente, toda a vez que um deles pisa o palco, condenando-os a serem nada mais que epílogos e prólogos dos espetáculos que criam. O diabo não os deixará pregar olho até que o gémeo que assinou o contrato, seja ele qual for, ou um dos seus descendentes, revele quem é quem, e assuma e salde a dívida. Azar dos diabos, todos os descendentes se apresentam como gémeos, o que só atrapalha a acção.
Data: 2023
Local: Teatro Helena Sá e Costa, Porto
Encenação: António Durães
Direcção musical: Jan Wierzba
Elenco: Ana Rosa, André Fernandes, Bárbara Xavier Quintais, Beatriz Patrocínio, Beatriz Ramos, Catarina Santos, Cliff Pereira, Erick Valverde, Gustavo Gil Godinho, Henrique Lencastre, Isabel Gundana, Joana Santos, Júlia Anjos, Lioba Vergely, Maria Duarte, Maria João Gomes, Miguel Soares, Ricardo Rebelo da Silva, Rita Gama e Ensemble Orquestral da ESMAE