Libretista: Agustina Bessa-Luís
Libreto baseado num texto inédito, adaptado
Drama estático em 1 acto
Data: 2014
Língua: Português
Duração: 55 minutos
Pequeno formato
Fanny Owen: soprano
Ema: soprano
Sibila: mezzo-soprano
Cl | Vln | Vc | Pf
Pequena nota a propósito da partitura Três mulheres com máscara de ferro, de Eurico Carrapatoso, drama estático em um acto, a partir do texto homónimo e inédito de Agustina Bessa-Luís.
Sempre gostei de desafios. Mas este, feito por João Lourenço e Vera San Payo de Lemos, foi um dos maiores que aceitei: escrever uma ópera tendo como base um texto que não foi concebido, à partida, para esse fim. Toda a música ficou seguramente condicionada por esse doce pecado original, risco que pude e, acima de tudo, quis correr.
A primeira reunião que tivemos, foi em Novembro de 2013. Nessa ocasião conheci o texto inédito de Agustina Bessa-Luís, Três mulheres com máscara de ferro. Lá estava aquela pequena peça de teatro, de tom «outonal, por magoados fins de dia». Não era um libreto. Fiquei a remoer o lance como quem remói o dente bolideiro.
Em Março de 2014, passados quatro meses de silêncio depois da primeira reunião, recebi o telefonema do João Lourenço: «A coisa vai para a frente. Podes avançar!» Não estava a contar com a notícia. Fiquei com aquela expressão no rosto que os homens costumam ter no barbeiro: olhar oblíquo, com a extrema melancolia de quem vai correr atrás do pêlo tosquiado, num fundo sonoro de tesouradas álgidas (não só as efectivas que cortam, bem como aquelas com que o barbeiro, com a tesoura em riste, tenteia seus lances estereofónicos)
Sim: erguia-se ali, diante de mim, numa orografia dramática parecida com a do Curral das Freiras, uma montanha a pique, um dead end a transpor. Lá fui buscar ao fundo das gavetas da minha condição o material de escalada. E toca a trepar um drama estático em um acto, de uma hora, no tempo estival. Um drama estático cujo enredo, segundo a definição de Fernando Pessoa citada por Isabel Pires de Lima na sua análise da peça de Agustina, «não constitui acção — isto é, onde as figuras não só não agem, porque nem se deslocam nem dialogam sobre deslocarem-se, mas nem sequer têm sentidos capazes de produzir uma acção; onde não há conflito nem perfeito enredo» (…) onde «pode haver revelação de almas sem acção [revelação das almas através das palavras trocadas» («cantadas», na conformidade do meu elemento)], «e pode haver criação de situações de inércia, momentos de alma sem janelas ou portas para a realidade.» (…)
Ou seja: não era só escalada o que o verão me reservava. Era, acima de tudo e afinal, espeleologia. Ah, é verdade! sem esquecer o rappel necessário para fechar a obra, com o regresso de Ema, Fanny e Sibila à condição petrificada das Três Graças.
A partitura ficou também com três secções distintas:
Data: 2014
Local: Auditório do CAM da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
Encomenda: Teatro Aberto/Fundação Calouste Gulbenkian
Encenação: João Lourenço
Direcção musical: João Paulo Santos
Elenco: Ana Ester Neves, Angélica Neto, Patrícia Quinta, Horácio Ferreira, António Figueiredo, Irene Lima e João Paulo Santos