Viver ou Morrer

1956

Descrição

Compositor:

Libretista: João de Freitas Branco
Libreto a partir de Bury the Dead de Irvin Shaw
Ópera radiofónica
Data: 1956
Língua: Português
Duração: 40 minutos
Grande formato

Personagens

Narradora: actriz
Mulheres: soprano e contralto
1º Soldado: tenor
2º Soldado: barítono
Coro

Sinopse

«A cena passa-se num campo de batalha. Dois soldados jazem mortos, em primeiro plano. […] Surgem duas mulheres […]. Procuram os corpos dos maridos. Encontram-nos, mortos. Com espanto vêem-nos mover-se, ouvem-nos falar. […] O par constituído pelo tenor e pela soprano fala uma linguagem lírica, amorosa. O outro fora um casal que a vida marcara duramente. Em determinado momento, […] ouve-se ao longe um cântico entoado pelos mortos espalhados no campo. Entra, subitamente, um comandante do exército inimigo. […] O comandante, reconhecendo tropa inimiga, aponta sem perda de tempo e dispara. As duas mulheres, aterrorizadas, refugiam-se atrás dos corpos erectos dos maridos. As balas atravessam os defuntos, sem os afectar, mas ambas caem por terra. […] Desfila a seguir o coro, cantando um motivo obstinado que exprime a esperança num mundo melhor.»¹

Instrumentação

3 Fl | 3 Ob | 3 Cl | 3 Fg | 4 Hn | 3 Tpt | 3 Tbn | Tb | 4 Perc | 2 Hp | Cel | Vln | Vla | Vc | Cb

Sobre a Obra

A primeira incursão de Joly Braga Santos pelo género operático faz-se, na verdade e como mais tarde o compositor viria a reconhecer, via uma «ópera-oratória» que nunca chegou a ser posta em cena. A ausência da sua dimensão «teatral» deve-se, em grande medida, à sua génese radiofónica. Foi a pensar na rádio, em particular no Prix Italia, fundado em 1948 pelos membros da União Europeia de Radiodifusão, que Viver ou Morrer foi composta em 1952, com libreto de João de Freitas Branco. A obra, com um enredo simples a partir da peça Bury the Dead do americano Irvin Shaw e recurso a dois narradores, coro masculino e vozes solistas, não viria a vencer o prémio, que nesse ano foi atribuído a Le joueur de flûte de Marius Constant (França) e Lord Inferno de Giorgio Federico Ghedini (Itália). Mas permitiu a Braga Santos alargar o seu repertório ao género dramático, procurando «contrariar a crise da ópera sua contemporânea, que decorreria, no que concerne à linguagem musical utilizada, do “desprezo de grande parte dos compositores modernos por uma entidade necessária a todo o artista: o Público”», como diria numa entrevista.²

Em 1956, um concerto de celebração do Golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, que pôs fim à Primeira República, permitiu a Joly Braga Santos revisitar a sua ópera radiofónica, introduzindo diferenças significativas na partitura para a então estreia pública e em versão de concerto. O musicólogo Edward Ayres de Abreu explica que «as diferenças relativamente à versão gravada em 1952 são substanciais, a começar pelo libreto, que é bastante truncado, e que se aproxima de uma versão dactilografada que se encontra no espólio dos herdeiros de Joly Braga Santos, datada de 26 de Fevereiro de 1952, em que os dois declamadores, um repórter de guerra masculino e uma voz poética reflexiva feminina, passam a ser um apenas – a voz feminina -, perdendo-se assim o interesse dos diálogos e da crítica e engenhosa caracterização destes intervenientes.»³

Braga Santos acrescentaria ainda, na versão de concerto, uma abertura sinfónica, cuja dimensão desproporcional ocupou quase um quarto da totalidade da ópera. Essa abertura, que mais tarde voltaria a desaparecer numa retransmissão radiofónica, adensa as dúvidas sobre qual a sua versão definitiva. O motivo para as alterações também não é evidente, tanto mais que a obra conserva a narração e a sua duração original.


A estreia foi bem acolhida pelo público, não obstante alguma ambivalência por parte da crítica. Em termos estéticos, a obra está em sintonia com as anteriores composições de Braga Santos, nomeadamente as suas quatro primeiras sinfonias, ainda sob grande influência de Freitas Branco e caracterizadas por um idioma modal, com uma harmonia relativamente simples e clara, em contraste com as vanguardas que então se ouviam no resto da Europa.


Em 1959, Joly Braga Santos voltaria a escrever para a rádio, novamente no contexto de uma proposta ao Prix Italia, compondo A estação, a partir de um conto de Fialho de Almeida, que ao contrário de Viver ou Morrer, não contém partes cantadas, e é, por essa razão, designada pelo compositor de «conto radiofónico». 

Estreia

Data: 1956
Local: Teatro Nacional São Carlos, Lisboa
Direcção musical: Joly Braga Santos
Elenco: Carmen Dolores, Germana de Medeiros, Laura Lima, Armando Guerreiro, Hugo Casaes, Coro do Teatro Nacional São Carlos e Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional

Referências

  1. Edward Ayres de Abreu, «Os “autos com barcas” de Gil Vicente enquanto ópera — Análise de propriedades significantes nos Auto da barca do inferno (1944) e Auto da barca da glória (1970) de Ruy Coelho e na Trilogia das barcas (1969) de Joly Braga Santos», Tese de Doutoramento em Ciências Musicais — Ciências Musicais Históricas (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2022): 86. 
  2. Abreu, «Os “autos com barcas” de Gil Vicente enquanto ópera — Análise de propriedades significantes nos Auto da barca do inferno (1944) e Auto da barca da glória (1970) de Ruy Coelho e na Trilogia das barcas (1969) de Joly Braga Santos»:  85
  3. Abreu, «Os “autos com barcas” de Gil Vicente enquanto ópera — Análise de propriedades significantes nos Auto da barca do inferno (1944) e Auto da barca da glória (1970) de Ruy Coelho e na Trilogia das barcas (1969) de Joly Braga Santos»: 87 e 88