A construção do Coliseu dos Recreios, grande sala de espectáculos localizada na Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa, foi promovida em 1887 por uma sociedade de empresários. O projecto arquitectónico de Francis Goulard concebia uma sala octogonal, preparada para acolher um âmbito alargado de espectáculos, com uma lotação de cerca de 6000 lugares, e a sua inauguração teve lugar a 14 de Agosto de 1890, com a ópera cómica Boccacio¹. Em 1897, a gestão da instituição foi assumida pelo empresário António Santos, que mais tarde, em 1919, formaria parceria com João Pires Correia e Ricardo Covões. Esta figura que acabaria por se distinguir no meio cultural lisboeta no desempenho dessa função, até à sua morte em 1951, altura em que a gestão foi entregue aos seus descendentes².
Entre 1890 e 1910, o Coliseu dos Recreios, acessível a preços relativamente baixos — o que lhe conferia uma dimensão de “cultura de massas” —, apresentou espectáculos de tipologias muito variadas, desde repertório musico-teatral, concertos e cinema a exibições circeneses, desportivas e até comícios políticos. No campo lírico, destacava-se um repertório centrado nos exemplares mais populares da ópera italiana e francesa do século XIX, assim como em opereta e zarzuela. Durante a República, o espaço afirmou-se mesmo como uma alternativa ao Teatro de São Carlos³.
Nos anos 60, com o apoio da F.N.A.T. (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho), dependente do Ministério das Corporações, foram instituídas “temporadas populares” de ópera no Coliseu dos Recreios, de acordo com uma estratégia de pretensa “educação de massas”. Nessa década e na seguinte, as récitas organizadas em pareceria com o Teatro Nacional de São Carlos ofereceram ao público a possibilidade de tomar contacto com um repertório consagrado e com solistas prestigiados a preços acessíveis⁴.
Após o 25 de Abril de 1974, para além das linhas de programação há muito estabelecidas (espectáculos musico-teatrais, concertos, música tradicional portuguesa e fado), o Coliseu dos Recreios deu também um espaço significativo aos nomes maiores da música popular brasileira, a cançonetistas francesas e aos novos nomes da música popular, do rock e do pop-rock português, assim como a cantores oriundos das ex-colónias portuguesas⁵.