Teatro Nacional de São Carlos

1793

O Teatro

A construção do Teatro de São Carlos foi promovida em 1792 por um conjunto de figuras da elite da capital, tendo a sua inauguração tido lugar a 30 de Junho de 1793 com a ópera La ballerina amante, de Cimarosa. O plano do arquitecto José da Costa e Silva baseava-se em modelos italianos, e o espaço funcionaria durante várias décadas, de facto, como um «teatro italiano», importando desse circuito não só o repertório como a generalidade dos seus profissionais. As óperas de Rossini chegam ainda em 1815, e após uma breve interrupção na actividade do teatro entre 1828 e 1833 (no contexto do domínio miguelista e da Guerra Civil), a reabertura em 1834 introduzia a música de Donizetti e Bellini, seguida do repertório verdiano a partir de 1843¹.

Em 1854, o Teatro de São Carlos tornou-se definitivamente propriedade pública, com o resgate pelo Estado da dívida ainda existente aos descendentes dos financiadores originais². A partir da década de 1860, o peso da tradição operática italiana começou a ser enfrentado por um crescimento da importância da ópera francesa na programação. Foi também impactante a introdução das óperas de Wagner (a partir de 1883, com a estreia nacional de Lohengrin), inicialmente em versões italianas, bem como da música de Puccini e da Giovine Scuola na década de 1890³.

Após a implantação da República a 5 de Outubro de 1910, a actividade do Teatro de São Carlos seria suspensa em 1912, devido essencialmente à ausência de consenso entre os protagonistas do novo regime republicano quanto à função a atribuir à instituição. Já na viragem para a década de 1920 a sua administração foi concedida à nova Sociedade do Teatro de São Carlos, Lda., que organizou uma série de temporadas líricas até 1924, sob a direcção do empresário italiano Ercole Casali. Este cultivou um repertório centrado nos dramas musicais wagnerianos e nas óperas mais populares do repertório tardo-oitocentista francês e italiano. Em 1926 a adjudicação em concurso público foi ganha por Ricardo Covões, empresário do Coliseu do Recreios, que ainda organizou a temporada de 1926/1927 com a direcção artística de Luís de Freitas Branco, mas a instituição rapidamente veria a sua actividade comprometida na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926.

O teatro viria mesmo a encerrar em 1934 para obras de restauro, que só seriam levadas a efeito a partir de 1938, reabrindo as suas portas ao público em 1940, no contexto da Exposição do Mundo Português e das comemorações dos 300 anos da Restauração. E foi já em 1943, no âmbito das comemorações dos seus 150 anos, que a instituição adoptou a designação de Teatro Nacional de São Carlos, passando a ser directamente administrado pelo Estado a partir de 1946. A nova direcção de José de Figueiredo marcou o início de um longo ciclo de temporadas líricas, que reforçou o lugar do teatro junto das elites.

A vida do Teatro de São Carlos conheceria uma nova fase imediatamente após a revolução de 25 de Abril de 1974. A indecisão política em relação ao seu estatuto e financiamento acabaria por resultar na sua transformação em empresa pública em 1980, a qual seria dissolvida em 1992 para dar lugar à Fundação de São Carlos, por sua vez extinta em 1998 para a instituição retomar a designação de Teatro Nacional de São Carlos. Quanto ao repertório, acentuou-se a partir de 1974 o número de estreias nacionais de exemplares do repertório barroco e contemporâneo, notando-se, a partir da década de 1990, uma tentativa de equilíbrio entre o repertório popular e outro mais ousado⁸.

Na actualidade, a instituição integra dois agrupamentos artísticos residentes: o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, criado em 1943, e a Orquestra Sinfónica Portuguesa, criada em 1993 (e que então tomava o lugar da anterior Orquestra Sinfónica do Teatro Nacional de São Carlos). A gestão de toda a estrutura (assim como da Companhia Nacional de Bailado e dos Estúdios Victor Cordón) é da responsabilidade do OPART — Organismo de Produção Artística, E.P.E., fundado a 27 de Abril de 2007, que assume como missão a prestação de serviço público de âmbito nacional na área da cultura musico-teatral.

Referências

  1. Mário Vieira de Carvalho, «Pensar é Morrer» ou O Teatro de São Carlos na mudança de sistemas sociocomunicativos desde fins do séc. XVIII aos nossos dias (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1993), 50-63; Rui Vieira Nery e Paulo Ferreira de Castro, História da Música (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1991), 120-123; Luísa Cymbron, «A música em Portugal no século XIX: uma panorâmica», in Olhares sobre a história da música em Portugal, coord. Jorge Alexandre Costa (Verso da História, 2015), 164-166.
  2. Luísa Cymbron, «Teatro Nacional de São Carlos», in Enciclopédia da música em Portugal no século XX, vol. 4, dir. Salwa Castelo-Branco (Círculo de Leitores / Temas & Debates, 2010), 1253.
  3. Nery e Castro, História da Música, 152-153; Cymbron, «A música em Portugal no século XIX: uma panorâmica», 187-188.
  4. Luís M. Santos, A música sinfónica em Lisboa da implantação da República à ascensão do Estado Novo (Tese de Doutoramento, Universidade Nova de Lisboa, 2023), 39-52.
  5. Santos, A música sinfónica em Lisboa da implantação da República à ascensão do Estado Novo, 118-119; Carvalho, «Pensar é Morrer» ou O Teatro de São Carlos na mudança de sistemas sociocomunicativos desde fins do séc. XVIII aos nossos dias, 131-212.
  6. Santos, A música sinfónica em Lisboa da implantação da República à ascensão do Estado Novo, 173-179.
  7. Nery e Castro, História da Música, 169-170; Carvalho, «Pensar é Morrer» ou O Teatro de São Carlos na mudança de sistemas sociocomunicativos desde fins do séc. XVIII aos nossos dias, 213-262.
  8. Cymbron, «Teatro Nacional de São Carlos», 1253.
  9. Opart, «Sobre», consultado a 15 de Janeiro de 2026, https://www.opart.pt/sobre.

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