António Leal Moreira foi uma figura de particular relevo na vida musical portuguesa da segunda metade do século XVIII. Nasceu em Abrantes, a 3 de junho de 1758, e, com oito anos, iniciou os seus estudos com o compositor João de Sousa Carvalho no Seminário da Patriarcal, ao lado de Marcos Portugal. Em 1775, após terminar a sua formação, Leal Moreira tornou-se professor e organista na mesma instituição, iniciando uma carreira de composição que abrangeu tanto a música sacra como a música dramática¹ .
Em paralelo com a sua atividade pedagógica, Leal Moreira compôs várias obras para a corte portuguesa, tendo sido particularmente próximo do reinado de D. Maria I. Em 1777, escreveu uma Missa do Espírito Santo para a cerimónia de aclamação da rainha e, em 1816, assumiu a direção musical e a composição de algumas das obras produzidas para as exéquias da monarca na Basílica da Estrela² . Entre uma e outra cerimónia, ao longo do reinado de D. Maria I, Leal Moreira produziu várias serenatas de corte — um género muito cultivado neste período e próximo da ópera, que não requeria encenação e estava associado à comemoração de determinados eventos dinásticos, cujos protagonistas são direta ou indiretamente mencionados no libreto³.
A partir da década de 1790, e no seguimento do impedimento da rainha, o compositor desviou a sua atenção para atividades fora do domínio da corte. Em 1790, assumiu a direção do Teatro da Rua dos Condes e, três anos mais tarde, tornou-se o primeiro diretor musical do recém-inaugurado Teatro Nacional de São Carlos⁴. Durante a sua permanência no Teatro da Rua dos Condes, foi responsável pela direção musical de óperas cómicas e esteve, por isso, em contacto direto com o repertório dramático de alguns dos mais renomados compositores italianos do seu tempo, como Giovanni Paisiello e Domenico Cimarosa⁵ . Mais tarde, à frente do São Carlos, continuou o trabalho desenvolvido na Rua dos Condes, promovendo sobretudo a execução de óperas cómicas italianas. Aí, viu serem apresentadas algumas composições dramáticas da sua autoria, nomeadamente duas farsas em língua portuguesa, com textos de Domingos Caldas Barbosa — A saloia namorada (1793) e A vingança da cigana (1794) —, bem como a ópera L’eroina lusitana, da qual apenas sobreviveram a abertura em redução para piano e o libreto, assinado por Gaetano Martinelli⁶.
Quando, em 1799, Marcos Portugal regressou ao país, Leal Moreira cedeu-lhe o seu lugar como dirigente do Teatro de São Carlos e passou a dedicar-se quase exclusivamente ao ensino no Seminário da Patriarcal e à composição de música sacra⁷ . Entre as obras deste último período de atividade, destacam-se duas missas escritas para a Basílica de Mafra, em 1807, nas quais são utilizados os seis órgãos então em funcionamento. Pouco depois, entre 1808 e 1810, Leal Moreira foi convocado a participar nas Guerras Peninsulares provocadas pelas invasões francesas, experiência que lhe acarretou problemas de saúde e terá contribuído para a diminuição da sua produção artística, vindo o compositor a falecer em 18198.