«Eu sempre fui uma irreverente, uma contestatária; nunca tive medo de nada, nunca me importei se diziam mal ou bem de mim», assim se defende Clotilde Rosa, quando lhe perguntavam como fora ser uma compositora mulher na sua época¹.
Clotilde Rosa nasceu em Queluz, em 1930, no seio de uma família musical — o pai, José Rosa, violinista e tenor, e a mãe, Branca Belo de Carvalho Rosa, harpista e pianista. Ainda assim, o seu percurso artístico foi, como assinala o musicólogo Manuel Pedro Ferreira, «atípico: desde cedo esposa e mãe, depois harpista profissional, só em 1976, na meia-idade, abraçou a composição musical. Se inicialmente as suas obras surgiam a um ritmo espaçado, a partir de 1985 a sua produção acelerou drasticamente, tendo já ultrapassado a centena de títulos.»²
Teve as «primeiras aulas particulares de piano aos dez anos», tendo terminado, em 1949, o Curso Superior no Conservatório Nacional de Lisboa com a professora Ivone Santos. «Começou a estudar harpa na mesma instituição aos doze anos com Cecília Borba, finalizando o Curso Completo de Harpa em 1948, sendo este o instrumento a que se dedicou profissionalmente.» Dez anos mais tarde, retomou os estudos,
fazendo parte dos Menestréis de Lisboa dirigidos por Santiago Kastner, com quem estudou baixo cifrado aplicado à harpa e interpretação de música antiga. De 1960 a 1963 recebeu bolsas da Fundação Calouste Gulbenkian e do governo holandês para estudar harpa particularmente com Phia Berghout em Amesterdão. Em 1964 estudou harpa com Jacqueline Borot em Paris e realizou baixo cifrado em 1967 com Hans Zingel na Colónia, Alemanha, com subvenções da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi no verão de 1962 que Mário Falcão lhe propôs tocarem Imagens sonoras, uma peça para duas harpas composta por Jorge Peixinho, o que ocasionou a aproximação de Clotilde Rosa a este compositor e ao meio musical português de vanguarda, um contacto fundamental para a sua vida.³
No início da década de 60, época em que Jorge Peixinho estudou com Pierre Boulez, em Basileia, a compositora teve também oportunidade de conhecer o maestro e autoridade máxima da composição vanguardista do pós-Segunda Guerra. Mais tarde, Peixinho e Rosa, viriam a cursar juntos Darmstadt, tendo conhecido, entre outros, Stockhausen. Nos anos 70, seria uma das fundadoras do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, liderado por Jorge Peixinho.
No que diz respeito à composição, define-se essencialmente como autodidata, ainda que tenha tido «algumas aulas de Contraponto com Jorge Croner de Vasconcelos, de Composição com Jorge Peixinho»; tenha assistido a «aulas de Análise de Álvaro Salaza», e trabalhado Instrumentação com Carlos Franco. «Assume-se como compositora em 1976 com a obra Encontro. Levada à Tribuna Internacional de Compositores de Paris por Joly Braga Santos e Nuno Barreiros, por proposta de Jorge Peixinho, a peça foi gravada na RDP e atingiu o 10º lugar ex-aequo, entre 60 obras de 30 países. Obteve também o 1º Prémio no Concurso Nacional de Composição da Oficina Musical do Porto com Variantes I, para flautista solo.»⁴
Segundo a própria Clotilde Rosa, foi Jorge Peixinho quem esteve na origem da criação da sua ópera sinfónica O Desfigurado, que nunca chegou a estrear, bem como do seu Concerto para Piano. O piano foi, aliás, um dos instrumentos para os quais mais compôs. Para além da actividade como compositora, destacou-se como harpista — colaborando com várias orquestras portuguesas — e como professora de harpa
S | A | T | 2 Bar | B + Coro + 2 Fl (Picc) | 2 Ob (C ingl) | 2 Cl (Bcl) | 2 Fg (Cfg) | 4 Hn | 2 Tpt | 2 Tbn | Tb | Timp | 3 Perc | Pf | Vln | Vla| Vc | Cb
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