Libretista: Pedro Mexia
Libreto a partir do contro tradicional O Macaco de Rabo Cortado
Ópera cómica em 3 cenas
Data: 2018
Língua: Português
Duração: ca. 80 minutos
Pequeno formato
Severa: mezzo soprano
Esmeralda: soprano
Bruna: soprano
Guadalupe: soprano
Oponente: tenor
Macaco: barítono
Colegas do Macaco: coro masculino
(Cenário: Escritório de uma prestigiada sociedade de advogados. Livros jurídicos, compilações de legislação, cadeiras giratórias confortáveis, diplomas na parede, paredes de vidro, computadores, bibelots. Os espaços envidraçados, fechados, podem converter-se em auditório, cantina, quartos, etc.)
ACTO I
(Macaco, mulher 1, coro.)
«Haverá quem me resista?». O Macaco explica o seu sucesso e os seus métodos. Exemplificação.
Primeira sedução. Triunfo. Discurso da seduzida. Coro apresenta-se. Hino fálico.
ACTO II
(Macaco, colegas do escritório, mulheres 2 e 3.)
Macaco conta o seu sucesso. A admiração dos colegas. Divagação sexual com termos jurídicos.
Macaco troca de mulher. Segunda sedução, igual à primeira. Triunfo. Macaco festeja. Discurso do oponente. Hino androfóbico. Macaco troca de mulher. Terceira sedução. Triunfo. Discurso do oponente, logo esmagado pela apoteose do coro.
ACTO III
(Macaco, mulheres 1, 2, 3 e 4.)
Lamento das abandonadas 1, 2 e 3. Luta de coros: o coro masculino contra um pequeno coro das três mulheres (retomando argumentos já ouvidos). Macaco justifica-se. Discurso sobre Casanova e Don. Juan (Kundera) (recitativo?). Macaco troca de mulher. Quarta sedução. Fracasso, incompreensão. Barafunda instrumental. «Julgamento final», com todos em palco.
Fl (Picc) | Ob (Ob d’am/C Ingl) | 2 Cl (2º Bcl) | Fg (Cfg) | 2 Hn | Tpt | Tbn | Tb | 4 Perc | Hp | Synth | Vln | Vla | Vc | Cb
O comediante dinamarquês Victor Borge acompanhava certa vez, ao piano, um cantor de ópera quando, de repente, parou de tocar e comentou: «Acaba de dizer isso.» Quando Inês de Medeiros e Nuno Côrte-Real me convidaram para escrever um libreto, a minha relação com a ópera podia descrever-se de forma muito semelhante. Mesmo óperas que considero obras-primas apresentam uma redundância enunciativa e um pathos exagerado que me parecem cómicos. Talvez por isso tenha sempre preferido as opere buffe — o que, aliás, coincidiu com o desafio que me foi lançado e que aceitei sem hesitação.
À medida que escrevia, mantendo contacto com o Nuno (um homem de paciência e cordialidade incomensuráveis), fomos afastando-nos do tema original, que era um comentário ao conto tradicional português do macaco de rabo cortado. Se não conheceis a história (como eu não conhecia), trata-se de um macaco cujo rabo, como o próprio nome indica, foi cortado, e que o troca (por via de sucessivos furtos) pela navalha que o cortou, depois a navalha por outro objecto, e assim sucessivamente, até anunciar misteriosamente que vai para Angola. A questão da «troca», no sentido económico, não me interessava tanto, até porque o Nuno já tinha composto, com libreto de Vasco Graça Moura, a ópera Banksters, com os seus banqueiros-gângsteres; o que me interessou foi outro tipo de troca, de natureza donjuanesca ou casanoviana. Isso levou-me a estabelecer outro paralelo, inevitável embora ténue, com o Don Giovanni de Mozart e com a ideia do «libertino punido».
Assim, do ponto de vista temático, Canção do Bandido fala de sedução, um conceito cada vez mais problemático e distante («quando eu era novo, havia uma coisa muito bonita que era a sedução», disse o cantor popular Victor Espadinha, mas também Vargas Llosa). De forma igualmente ambígua, entram em jogo outras noções: auto-estima, natureza, masculinidade, o direito ao assédio e a servidão voluntária. A nossa proposta apresenta, digamo-lo assim, um Dom Juan na era do #MeToo, num contexto cultural em que o «sedutor» é punido não por ser libertino, mas por usar a sua sexualidade de forma abusiva. Que tenhamos transformado o macaco (do conto) num advogado pareceu-me natural, já que a linguagem jurídica oferece infinitas ambiguidades libidinosas e fórmulas adequadas a uma “canção de bandido”.
E, no entanto, aquilo que esta ópera possa ser do ponto de vista temático é menos importante do que aquilo que experimenta em termos formais: o jogo da repetição, as variações sobre a mesma situação, as apoteoses seguidas de colapso, a coreografia darwinista ou o carnaval de alusões que, no plano textual, vai do poeta João Roiz de Castel-Branco ao cantor popular Dino Meira, num patchwork linguístico entre o sublime e o derrisório. Afinal, trata-se de um assunto muito sério — isto é, de um assunto seriamente cómico.
Data: 2018
Local: Teatro da Trindade, Lisboa
Encomenda: Teatro Nacional de São Carlos, Teatro da Trindade e Temporada Darcos
Encenação: Ricardo Neves-Neves
Direcção musical: Nuno Côrte-Real
Elenco: André Henriques, Bárbara Barradas, Cátia Moreso, Inês Simões, Marco Alves dos Santos, Sónia Alcobaça, Coro do Teatro Nacional de São Carlos e Orquestra Sinfónica Portuguesa