Nuno Côrte-Real

1971
Compositor

Biografia

Com uma carreira de mais de vinte anos abrangendo a composição, a regência e a curadoria artística, Nuno Côrte-Real (n. 1971) é um dos mais importantes músicos da música clássica portuguesa.

Citando o musicólogo Rui Vieira Nery, é um «compositor de liberdade criativa, desafiando todos os rótulos estilísticos actuais (…) em plena produção e em plena consagração, sempre com a capacidade de nos envolver emocionalmente, de forma muito saudável e muito pura, da sua própria e original maneira». Côrte-Real venceu, consecutivamente, o prémio de Melhor Obra de Música Clássica da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2018 e 2019, com o ciclo de canções Now Every Thing Changes e a ópera bufa Bandit Song, respetivamente. O seu CD, Tremor (Ars Produktion 2021), foi nomeado em cinco categorias nos Opus Klassik Awards.

Em 1998, apresentou na Fundação Calouste Gulbenkian – Encontros Acarte – o espetáculo de teatro musical O Sentimento dum Ocidental, recebido com entusiasmo pela Fundação e pela crítica musical.

Entre as suas estreias mais importantes contam-se a ópera Banksters, no Teatro Nacional de São Carlos, a ópera de câmara A Montanha, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, 7 Dances to the Death of the Harpist, na Kleine Zaal do Concertgebouw em Amesterdão, Concerto Vedras, na St. Peter’s Episcopal Church, em Nova Iorque, Novíssimo Cancioneiro, no Festival de Siglufirdi, na Islândia, Andarilhos – música para bailado, na Casa da Música, no Porto, e Kind of concerto – Concerto para Tuba e Orquestra, com a Orquesta Sinfónica de Castilla y León, em Espanha. Em dezembro de 2022, na sequência de um convite do mais famoso monumento religioso português, o Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, concebeu, regeu e dirigiu o concerto de encerramento do quinto centenário da morte de D. Manuel (1522-2022), com o coro e a orquestra do Teatro Nacional de São Carlos, desenho de luz de Nuno Meira e uma instalação sonora de Süse Ribeiro, um dos eventos mais complexos e grandiosos realizados na Igreja do Mosteiro.

A sua discografia inclui discos editados nacional e internacionalmente em vários géneros musicais e diversas editoras de renome, como Volupia (Numérica 2012), Mirror of the Soul (Odradek 2016), Agora Muda Tudo (Odradek 2019), Cante (Odradek 2020), Time Stands Still (Artway Records 2020) e Hukvaldy Cycle (Naxos 2021). No mundo cénico, Nuno Côrte-Real trabalhou com alguns dos principais nomes da ópera, teatro, literatura e cinema em Portugal e no estrangeiro, tanto como maestro como compositor. Em 2022, a sua banda sonora original para o filme Terra Nova (realizado por Artur Ribeiro) foi nomeada para os Prémios de Cinema Português «Sophia». Numa carreira ascendente como maestro, Nuno Côrte-Real tem trabalhado com a Mahler Chamber Orchestra, a Orquestra Sinfonica di Milano, a Orquesta Sinfonica de Castilla y León, a Orquestra Sinfónica da Ópera Estatal Húngara, a Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Orquesta Ciudad de Granada, a Orquestra della Toscana, a Orquestra Metropolitana de Lisboa, o Ensemble Orchestral Contemporain, entre muitas outras, para além de inúmeros projetos com o Ensemble Darcos. Adicionalmente, tem trabalhado com solistas de renome internacional como Shlomo Mintz, Ann Peterson, Nicola Ulivieri, Mats Lidström, Ana Quintans, Artur Pizarro, Elisabete Matos, António Rosado, entre muitos outros.

Nuno Côrte-Real é o fundador e diretor musical do Ensemble Darcos, um grupo de música de câmara dedicado à interpretação da sua música e do grande repertório europeu, e é o diretor artístico da Temporada Darcos, um dos mais prestigiados festivais internacionais de música clássica portugueses. Foi bolseiro do Centro Nacional de Cultura e, em 2003, foi agraciado com a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Torres Vedras. Côrte-Real trabalha regularmente com a Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa.

Nuno Côrte-Real é uma figura de proa no universo da música contemporânea.
O seu percurso como compositor revela, desde cedo, uma postura independente e irreverente em relação às correntes dominantes e aos gostos estabelecidos.

A pluralidade e o sincretismo que caracterizam a sua obra denotam uma forma aberta e descomplicada de habitar a música, numa rutura clara com os clichês, o determinismo estético e o elitismo típicos da música contemporânea.

A sua música tem procurado restaurar a expressividade emotiva e a dimensão humana e comunicativa que a arte árida e hermética da vanguarda havia suprimido. O lirismo melódico, uma escrita rítmica enérgica e variada, e uma harmonia que privilegia a consonância são traços marcantes do seu estilo, um estilo de síntese, de natureza eclética, mas imediatamente reconhecível.

Em muitos aspetos, a linguagem e a gramática musical de Côrte-Real revelam uma proximidade com o espírito neoclássico. Neoclássico porque compõe segundo uma dialética de tema e variação e de acordo com o princípio do contraste; porque concebe a música como discurso e a desenvolve num tempo linear e direcional; a sonoridade não tem um valor independente, prevalecendo a racionalidade retórica e a continuidade discursiva. Poder-se-ia dizer, devido ao seu objetivismo e princípios construtivos, que estamos perante uma poética stravinskiana, ou, por outras palavras, uma poética apolínea, que privilegia a medida e a forma, e exclui o elemento dionisíaco, o êxtase, o informe e o desmedido. Mas a sua música tem outro lado complementar, que poderíamos chamar de lado psicológico ou dramático: e aqui predomina um tipo de expressividade romântica, uma eloquência exacerbada, um gosto pelos contrastes e pelos efeitos teatrais. Não é por acaso que a ópera é um dos seus géneros favoritos, mas o carácter dramático da sua conceção musical acaba por se manifestar em todos os géneros. Um aspeto característico da sua produção reside no seu gosto pela simbiose estilística, pelo recurso a elementos de outras tradições musicais, como a música popular, o jazz ou a música pop. Pode-se dizer que o compositor procura retirar a música contemporânea do seu nicho fechado e revitalizá-la através da aproximação a outros universos sonoros.

A pluralidade e o sincretismo que caracterizam a sua obra denotam uma forma aberta e descomplicada de habitar a música, numa ruptura clara com os clichês. O seu catálogo discográfico inclui várias obras de caráter híbrido ou simbiótico que se alimentam de outras tradições. Cante (Odradek, 2019), baseado em canções populares portuguesas, o ciclo de canções Now everything changes (Odradek, 2019), escrito para a famosa cantora de jazz Maria João, Time Stands Still (Artway Records, 2020), uma interessante recriação das canções de John Dowland, e Tremor (Ars Produktion, 2021), que se podem inscrever na mesma linha criativa. A sua produção mais recente tem revelado um interesse renovado pelos géneros vocais, nomeadamente o ciclo de canções, campo onde é particularmente evidente a relação umbilical do compositor com a poesia e a cultura portuguesas. Entre as suas inúmeras partituras baseadas ou inspiradas na literatura portuguesa, algumas resultaram de uma colaboração estreita com poetas contemporâneos como Vasco Graça Moura, José Luís Peixoto ou Pedro Mexia.

Óperas

La Vida Secreta (2021)

S + Voice-over + Sax (S/A/T/Bar) | Vln | Vla | Vc | Pf | Synth
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Canção do Bandido (2018)

4 S | Mz | T | Bar + Fl (Picc) | Ob (Ob d’am/C ingl) | 2 Cl (2º Bcl) | Fg (Cfg) | 2 Hn | Tpt | Tbn | Tb | Perc | Hp | Synth | Vl | Vla | Vc | Cb
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Os dilemas dietéticos de uma Matrioska do meio (2016)

S | Bar + Cl | Vc | Pf
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Banksters (2011)

2 S | Mz | 3 T | 3 Bar | 2 B + Coro + 2 Fl (Picc) | 2 Ob (C ingl | 2 Cl (Bcl) | 3 Fg (3º Cfg) | 4 Hn | 2 Tpt | 3 Tbn | Tb | Perc | Hp | Pf/Cel | Gtr (Egtr) | Vln | Vla | Vc | Cb
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A Montanha (2007)

2 S | Bar + 2 Fl (Picc/Afl) | Ob (C ingl) | Cl (Ebcl/Bcl) | Fg (Cfg) | Hn | Tpt | Tbn | Perc | Hp | Pf | Cel | Vln | Vla | Vc | Cb
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O Rapaz de Bronze (2007)

3 S | 2 Mz | 2 T | Bar + Fl (Picc) | Ob (Ob d’am/C ingl) | 2 Cl (2º Bcl) | Fg (Cfg) | Hn | Tpt | Tbn | Perc | Hp | Pf/Cel | Vln | Vla | Vc | Cb
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