Guerras do Alecrim e Manjerona

1737

Descrição

Compositor:

Libretista: António José da Silva
Ópera joco-séria

Data: 1737
Língua: Português
Duração: 150 minutos
Pequeno formato

Personagens

D. Gil Vaz: tenor
D. Fuas: tenor
Semicúpio: baixo
D. Clóris: soprano
D. Nise: mezzo-soprano
Sevadilha: soprano
Fagundes: actriz
D. Lançarote: baixo
D. Tibúrcio: actor

Sinopse

A acção decorre em Sintra, mais precisamente na quinta de Dom Lançarote. Surgem as suas duas sobrinhas, D. Nise, do reino da Manjerona, e Dona Clóris, do Alecrim, com o rosto coberto, acompanhadas da criada Sevadilha, perseguidas pelos caça-dotes Dom Fuas e D. Gil Vaz e pelo criado Semicúpio. Depois de muitas declarações amorosas e piropos, as raparigas cedem e prometem voltar a vê-los, permitindo que o criado Semicúpio descubra a sua morada. Oferecem a cada um um ramo de manjerona e outro de alecrim; Sevadilha oferece também um malmequer ao criado que as segue. Este informa os seus falidos e famintos senhores de que as raparigas a quem se declararam não são nada mais nada menos do que as suas vizinhas, as ricas sobrinhas de Dom Lançarote, que fez fortuna com minas, e que o velho tem a casa tão bem fechada e guardada que seria melhor desistirem da empresa. Ambos depositam, contudo, as suas esperanças na astúcia do criado.

Fagundes, outra criada de Dom Lançarote, procurando as duas raparigas, acaba por revelar a D. Fuas que uma das sobrinhas irá casar com um primo rico que virá escolher uma delas no dia seguinte, enquanto a outra irá para o convento. Este promete-lhe alvíssaras em troca de um encontro com Nise. Fagundes diz-lhe para aparecer à noite debaixo da cozinha, onde lhe dirá o que fazer: «Dona Nise há de ser sua, apesar das cautelas do tio e das carícias do noivo». O sobrinho Tibúrcio chega, mostrando a sua avareza. Tomado de interesse pela criada, fica escandalizado por o tio permitir que as moças alimentem a rivalidade dos dois ranchos do Alecrim e da Manjerona, ao que o tio responde que, desde que não custe dinheiro, não vê por que não.

Semicúpio inicia o seu plano e simula uma indisposição aguda, que um balde de água gelada, lançado por Fagundes, vem acalmar. Dom Lançarote, vendo o criado a tremer de frio, pede a Sevadilha que o cubra com o seu capote. Partem todos de seguida, exceto a criada, a quem Semicúpio canta, desfolhando o malmequer, o seu oráculo do amor. Clóris surge e pergunta a Semicúpio qual o ofício do seu amo, ao que este responde que terá o ofício de defunto quando morrer, mas que, por ora, possui muitas posses, incluindo uma quinta tão grande que são necessárias vinte e quatro horas para a percorrer inteira. Encantada, Nise manda recado a Dom Gil Vaz para ter paciência e persistência, pois ela será sua.

Semicúpio parte levando o capote de Dom Lançarote: «Se a ocasião faz o ladrão, então hei de sê-lo para não perder a ocasião». Dom Lançarote fica furioso com Sevadilha por ter deixado roubar o capote, ameaçando rasgar-lhe a capa, no dueto hilariante «Moça tonta, descuidada». Entretanto, Semicúpio, «César dos alcoviteiros», dá boas novas a Dom Gil Vaz. Vêem Dom Fuas ir ao encontro de Nise, subindo as escadas lançadas por Fagundes e dizendo a senha «manjerona». Decidem aproveitar a ocasião. Dom Gil Vaz consegue entrar, mas Fagundes acaba por atirar Semicúpio escada abaixo, levando as escadas consigo. Dom Fuas fica espantado ao encontrar outro encapuçado e pede contas a Dona Nise, que afirma nada saber. Zangam-se. Entretanto, Dom Gil Vaz convence Fagundes a ir buscar Clóris, jurando-lhe amor eterno.

Sevadilha, afogueada, avisa Clóris de que o velho está a acordar e de que os intrusos devem partir sem demora. Porém, as escadas foram retiradas, a porta está fechada e a chave encontra-se debaixo do travesseiro do tio. Dom Lançarote chama Fagundes e Sevadilha. Perante a iminente descoberta dos intrusos, Semicúpio lança o alerta de que a casa está a arder. Saem todos para fora, e Semicúpio, com os dois amos, prontifica-se a apagar o fogo, gesto pelo qual Dom Lançarote fica muito agradecido.

Entretanto, Fagundes tenta introduzir Dom Fuas na casa, escondido dentro de uma caixa. Porém, a caixa é tão pesada que pede ajuda a Semicúpio, que vê ali a oportunidade de introduzir também Dom Gil Vaz, fazendo-o entrar na mesma caixa. Tibúrcio faz a corte a Sevadilha, que o escorraça. Dom Lançarote queixa-se da sua indecisão, e ambos se sentam ao pé da caixa, enquanto ele a tenta aliciar enumerando o seu dote. A caixa, aos saltos, acaba por atirá-los ao chão. Fogem todos com medo do que ela possa conter, ficando apenas Dona Nise, desejosa de finalmente encontrar Dom Gil Vaz. Contudo, o primeiro a sair da caixa é Dom Fuas; Dom Gil Vaz, cheio de ciúmes, declara Nise infiel. Esta parte com Fagundes.

Clóris procura Dom Fuas, mas Dom Gil Vaz, pensando tratar-se de Nise, continua a injuriá-la. Como tudo está às escuras, os dois amigos, julgando-se inimigos, batem-se em duelo, mas não acertam em nada. Entretanto, Dom Lançarote e Tibúrcio tentam ganhar coragem para abrir a caixa, mas, sendo ambos muito medrosos, Semicúpio aproveita para os pôr um contra o outro, dando um par de estalos a cada um, que julga ter sido agredido pelo outro. Nise vem ao encontro de Dom Gil Vaz, mas encontra Dom Fuas e pede-lhe que a ajude a ver Clóris. Esta diz-lhe para esperar na alcova. Entretanto, Dom Gil Vaz sai do caixote e volta a acusar Nise de infidelidade; farta de ser injuriada, ela vai-se embora.

Depois de esclarecida a situação, Dom Lançarote manda chamar as sobrinhas para que Tibúrcio escolha definitivamente uma delas. Mas Semicúpio aparece com os seus amos mascarados de mulheres e alega que aquele senhor se comprometeu a casar com as duas filhas. Escandalizado, Dom Lançarote expulsa Tibúrcio de casa. Este fica com uma cólica de nervos tão grande que julga estar a morrer, e quem surge para o tratar é, claro, Semicúpio: «Se não há filosofia natural, por que não haverá medicina?… O que não mata engorda… Cada um é senhor da sua vida e pode curar-se como quiser…». Fagundes a semear, e nós a colher…

Instrumentação

Ob | Hn | Vln | Vla | Vc | Cb | Cemb
Editora: CESEM/Colibri
Partitura: Teatro Nacional de São Carlos

 

Sobre a Obra

Guerras do Alecrim e Manjerona, uma ópera joco-séria com libreto de António José da Silva, «O Judeu», e música de António Teixeira, foi estreada no Carnaval de 1737 no Teatro do Bairro Alto, o único palco lisboeta da época onde se cantava em português. A obra, tal como As variedades de Proteu, ocupa um lugar singular no século XVIII português. Destaca-se pela ousadia de usar a língua vernácula num meio dominado pelo italiano e pela sua conceção original para marionetas (bonifrates), com cantores e atores ocultos. Os recitativos assumem a forma de diálogos falados, sem o habitual acompanhamento de baixo contínuo, aproximando estas obras de géneros como o singspiel alemão, a opéra-comique francesa e a opereta.

Outro elemento distintivo é a concepção original para marionetas, os chamados bonifrates. Em vez de atores visíveis em palco, as personagens eram representadas por figuras manipuladas, enquanto cantores e intérpretes permaneciam ocultos. Este recurso conferia à obra um carácter híbrido, situado entre o teatro de bonecos e a ópera, ampliando o seu potencial satírico e caricatural. A utilização de marionetas permitia acentuar o exagero, o grotesco e a crítica social, elementos centrais na dramaturgia de António José da Silva. Entre os alvos dessa crítica encontram-se a nobreza decadente, a medicina retórica e balofa, a justiça ineficaz e os exageros barrocos. A rivalidade simbólica entre grupos identificados por flores — alecrim e manjerona — funciona como metáfora para preconceitos e divisões sociais levadas ao absurdo. A tradição de batalhas de flores em Sintra serve de ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre rivalidades fúteis e convenções sociais. O resultado é um libelo irónico contra instituições e comportamentos, suavizado pela leveza dos cantares e pela vivacidade musical.

A linguagem desempenha papel central nessa dinâmica. Ao contrário do cultismo académico e do maneirismo poético que satiriza, a obra privilegia uma expressão chã, espirituosa e cheia de pilhéria, particularmente evidente na figura de Semicúpio. Este contraste linguístico reforça o efeito cómico e evidencia a crítica aos excessos retóricos da época. A música de António Teixeira acompanha e amplifica essa intenção, integrando números musicais que dialogam com o texto de forma orgânica.

Após mais de dois séculos de esquecimento, a ópera foi ressuscitada em 1968, graças ao trabalho de reconstrução da partitura realizado por Filipe de Sousa. A estreia moderna coube à Companhia Portuguesa de Ópera do Teatro da Trindade, então sob a direção de José Serra Formigal. Este momento marcou o início de um renovado interesse pelo património lírico português e pela redescoberta da produção de António José da Silva e António Teixeira.

No século XXI, esse interesse intensificou-se e levou a novas produções que procuraram completar a partitura, parcialmente perdida. Entre 2000 e 2006, montagens no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, no Teatro da Trindade e no Teatro Nacional D. Maria II integraram composições adicionais do maestro Stephen Bull. Em 2018, o agrupamento Os Músicos do Tejo, em co-produção com a S.A. Marionetas, levou a obra a festivais nacionais e internacionais. Essa mesma formação realizou, em 2021, uma nova produção integral no Centro Cultural de Belém, que culminou na primeira edição mundial em Livro-CD, 2025, garantindo a preservação e divulgação deste marco do património lírico português.

Estreia

Data: Carnaval de 1737
Local: Teatro do Bairro Alto, Lisboa