Libretista: Enrico Golisciani
Libreto baseado no romance Lion Amoureux de Fréderic Soulié
Comédia lírica em quatro quadros
Data: 1909
Língua: Italiano
Grande formato
Lisa: soprano
Germana: mezzo-soprano
Lingart: tenor
De Sterny: tenor
Tirlot: tenor
Prospero Gobillou: barítono
Laloine: baixo
Flaminia: soprano
Fattorino: soprano
Amanda: mezzo-soprano
Marinet: barítono
Domestico: baixo
Coro
A acção decorre em Paris por volta de 1830. O primeiro Quadro começa com o banquete de casamento de Prospero e Germana no restaurante Cadran Bleu, no Faubourg Saint-Martin, em Paris. Germana e a sua irmã Lisa são filhas de Laloine, um plumassier (chapeleiro especializado em plumas). Representam uma família pequeno-burguesa suburbana. Lisa sofre de problemas cardíacos desde a morte da mãe. A família aguarda a visita do Marquês de Sterny, um aristocrata de vida fácil e moral duvidosa, que, ao chegar, se senta junto de Lisa e tenta seduzi-la. Ela não o leva a sério. Tirlot está apaixonado por Lisa, irrita-se com De Sterny e faz comentários ofensivos a seu respeito. No entanto, Lisa prefere a companhia do Marquês, e os dois ficam a sós durante algum tempo. Ela mostra-lhe um medalhão herdado da mãe, onde se lê “Ciò che si vuol si può” («Tudo é possível quando se quer verdadeiramente»). De Sterny pergunta-lhe quem é o eleito do seu coração, e ela responde: «tudo é possível quando se quer verdadeiramente», acrescentando «exceto ser amada».
O segundo Quadro inicia-se na casa de De Sterny, ricamente decorada. O Marquês está pensativo, enquanto um grupo de amigos tenta entrar no seu quarto, troçando dele e insinuando que está apaixonado pela Borghesina ou por Flaminia, uma mulher de vida fácil que se assemelha muito a Lisa. Convidam-no para um passeio a Saint-Germain no dia seguinte, e ele aceita. Depois de saírem, De Sterny contempla o medalhão de Lisa, lamenta a sua vida vazia e de excessos e apercebe-se de que está apaixonado por ela. Prospero vai a sua casa agradecer-lhe a presença no casamento. Ao saber que Lisa, Germana e Laloine estão na carruagem à porta, De Sterny convida-os a entrar. Eles admiram o luxo da casa. O Marquês oferece um presente aos noivos e pede a Lisa que escolha algo para si. Ela escolhe um leque simples, mas a reação inicial de De Sterny é de hesitação. Lisa pensa tratar-se de uma recordação amorosa e desmaia. De Sterny explica que o leque pertenceu à sua mãe; ao recuperar, Lisa fica radiante. Contudo, percebe que revelou involuntariamente o seu amor. Tirlot entra, e Lisa tenta disfarçar os seus sentimentos, mostrando-se animada com a sua presença e com o passeio a Saint-Germain. De Sterny entristece e, fingindo indiferença, devolve-lhe o medalhão. Lisa parte de coração destroçado, e ele sente-se angustiado e culpado pelo seu sofrimento.
O terceiro Quadro decorre na floresta de Saint-Germain, durante a tarde. Enquanto algumas crianças brincam ao «jogo da cabra-cega», Laloine, Germana e Prospero repreendem Tirlot por ter assustado o cavalo de Lisa, que só foi salva graças à súbita intervenção do Marquês. Entretanto, De Sterny e Lisa afastam-se, e a família procura-os. O Marquês declara o seu amor, mas Lisa receia a diferença de estatuto social. Por fim, cede e entrega-se nos seus braços. Subitamente, surgem amigos de De Sterny, fazendo comentários irónicos. Lisa volta a desmaiar. Furioso, o Marquês expulsa-os e tenta reanimá-la. Aproxima-se uma tempestade. Quando Germana, Laloine e Prospero se aproximam, Lisa pede ao Marquês que parta, e ele sai antes que os outros cheguem. Ao verem Lisa debilitada, o quadro termina.
O último Quadro passa-se ao amanhecer, na casa de De Sterny. Decorre um baile de máscaras, e o Marquês encontra-se nos braços de Flaminia, que se proclama sua amante oficial. Amanda comenta que ele tenta consolar-se com Flaminia porque a Borghesina o despreza. Soa no exterior o dobre de um sino fúnebre. Prospero entra e anuncia a agonia e morte de Lisa. Lá fora continuam os sinos, ouvindo-se um Dies Irae na rua, enquanto dentro da casa a festa prossegue. Uma orquestra em palco toca uma valsa. De Sterny chora a morte de Lisa, e Prospero pede a Deus que lhe perdoe¹.
2 Fl (Picc) | Ob | Cl A | Sax A | 2 Fg | 4 Hn | 2 Tpt A | 3 Tbn | Tb | 3 Perc | Hp | Vln | Vla | Vc | Cb
Partituras: Biblioteca Nacional de Portugal
Edição de António Vassalo Lourenço
La Borghesina (A Burguesinha) é a última ópera composta por Augusto Machado. A ópera está dividida em quatro atos (chamados «Quadros») e revela influência das últimas composições de Massenet, especialmente Werther, refletindo a francofilia de Machado. Contudo, também é representativa do conhecimento e interesse do compositor português sobre o verismo italiano e da obra de Puccini. Algumas características melódicas associadas a Puccini — como a linha vocal fragmentada, a expressão de emoção intensa em frases curtas e o reforço da voz pela orquestra — podem ter chegado a Machado tanto direta quanto indiretamente, inclusive por meio da influência de Massenet².
Data: 1909
Local: Teatro de São Carlos, Lisboa