Libretista: Anónimo (atribuído a Ferdinando Casorri)
Dramma giocoso em 3 actos
Data: 1769
Língua: Italiano
Pequeno formato
Basílio: baixo
Giulietta: soprano
Bettina: soprano
Armidoro: tenor
Contessa Eugenia: soprano
Asdrubale: tenor
Frontino: tenor
Acto I
Cena 1
Armidoro, Giulietta, Frontino e Bettina evocam as inquietações causadas pelo amor e as provações por que têm de passar os apaixonados. O pai de Giulietta, Basílio, pretende casá-la com um Conde na penúria, Asdrubale, para com isso obter o tão desejado título de nobreza. Armidoro traça um plano para desacreditar o Conde e impedir o casamento, mas para isso Giulietta deverá fingir que aceita o casamento, enquanto que Armidoro se disfarça de secretário francês ao serviço de Basílio.
Cena II
O Conde está rodeado pelos seus inúmeros credores, que exigem o pagamento das dívidas. Anunciando o seu casamento com uma rica herdeira, o Conde consegue ver-se livre dos credores prometendo pagar com o dote que irá dentro em breve receber.
Cena III
O Conde pede a Bettina que mande chamar Giulietta. Cumprindo o seu papel no plano de Armidoro, Bettina alimenta a vaidade do ridículo Conde.
Cena IV
O conde revela os seus cálculos. A sua noiva pertence a uma classe social inferior à sua, mas a sua desesperada situação não lhe deixa outra saída. Mas a noiva é bonita e sendo rica poderá saldar as suas dívidas. Além disso, já que Basílio mostra inclinação pela sua irmã, talvez se possa fazer um duplo casamento.
Cena V
Basílio vem cumprimentar o seu futuro genro e faz desfilar os seus lacaios com as librés de refinado gosto que mandou fazer para o casamento e propõe-se casar com Eugénia, a irmã do Conde. Este aceita mas vai avisando que não gaverá dote. Basílio responde que só pretende reconquistar a ilustre linhagem dos seus descendentes… isto é, antepassados.
Cena VI
Armidoro apresentando-se como Secretário francês de Basílio, anuncia que Giulietta acedeu ao pedido de casamento do Conde.
Cena VII
Giulietta declara o seu amor pelo Conde dirigindo-se na verdade a Armidoro. Basílio anuncia que também se vai casar e propõe-se fazer uma visita a Eugénia. Não contando que o convite fosse aceite, o Conde convida toda a gente a almoçar em sua casa.
Cena VIII
O Conde está metido num grande sarilho. Todos os móveis de sua casa estão no adeleiro e não tem como oferecer o almoço.
Cena IX
O Conde manifesta a sua preocupação ao Secretário francês invocando dificuldades momentâneas que o impedem de oferecer o almoço. Armidoro percebe que se pode aproveitar da situação e oferece-se para resolver o problema.
Cena X
Armidoro medita sobre o mistério do amor: faz sofrer mas não podemos passar sem ele.
Cena XI
Eugénia lamenta a sua situação. De que lhe adiantam os pergaminhos da família se é obrigada a casar com um homem que despreza?
Cena XII
Basílio é apresentado a Eugénia desfazendo-se em salamaleques, tentando imitar uma linguagem que não domina. Eugénia não tem outro remédio senão aceitar casar com Basílio. Quando o Conde reitera o convite para o almoço, Eugénia fica perplexa.
Cena XIII
Armidoro anuncia que o almoço está pronto. Eugénia fica impressionada com o jovem e mal consegue esconder o que sente. Giulietta fica com ciúmes. Frontino dá a entender a Bettina que algo inesperado vai acontecer.
Cena XIV
Eugénia fica sozinha e de novo lamenta a sua situação. Como gostaria de casar com o Secretário em vez de Basílio.
Cena XV
O almoço começa. Todos comem, cantam e bebem. Subitamente, batem à porta. Armidoro comunica que são os fornecedores que querem levar tudo de volta por não ter sido pago. Para desespero do Conde e espanto de Basílio, talheres, toalhas, pratos, tudo é levado sem respeito nenhum por tão ilustres comensais. O conde apercebe-se que aquilo é obra de Armidoro. Basílio não sabe o que pensar.
Acto 2
Cena I
Em casa de Basílio, Giulietta, Armidoro, Bettina e Frontino estão de novo desesperados. Tudo volta ao princípio, Basílio reconcilia-se com o Conde. Giulietta confessa a Armidoro que tem ciúmes de Eugénia. Armidoro protesta a sua fidelidade. Ambos se prometem amor eterno. Armidoro promete pagar bem a Frontino e Bettina se estes os ajudarem a congeminar um novo plano.
Cena II
Bettina insinua a Frontino que com aquele dinheiro já poderiam casar. Frontino faz-se desentendido. Bettina fica desconsolada com tanta falta de romantismo.
Cena III
Frontino, a sós, confessa que lhe agrada a ideia de ter dinheiro e mulher.
Cena IV
Basílio e o Conde desfazem-se em desvelos de amizade e carinho. O Conde convence Basíliio que foi vítima de uma armadilha.
Cena V
Basílio rejubila com a ideia do seu casamento. Eugénia disfarça o seu desprezo, na esperança de encontrar o secretário.
Cena VI
O Conde mantém o Secretário sob vigilância. A Condessa também mas por outros motivos.
Cena VII
Armidoro representa para a Condessa Eugénia o seu papel de francês charmoso. Giulietta observa-os escondida.
Cena VIII
Eugénia, perdida de amores por Armidoro, lamenta não poder alimentar nenhuma esperança.
Cena IX
Giulietta, cega pelo ciúme, decide aceitar a corte do Conde para castigar Armidoro.
Cena X
Giulietta e Armidoro acusam-se mutuamente de infidelidade. Armidoro ajoelha-se tentando fazer as pazes.
Cena XI
Basílio e o Conde chegam a tempo de assistir à cena. Ambos percebem que Frontino tem sido aliado de Armidoro. Giulietta repele Armidoro.
Cena XII
Giulietta faz as pazes com Armidoro.
Cena XIII
Basílio e o Conde chegam com homens armados de bastões e expulsam Armidoro e Frontino. Armidoro promete vingar-se.
Cena XIV
Basílio e o Conde planeiam uma soirée musical com o Senhor Semi-Colcheia. Bettina observa escondida e congemina um novo estratagema.
Cena XV
Giulietta morre de tristeza sem Armidoro. Bettina aconselha-a a não mostrar os seus sentimentos. Anuncia-se a chegada do mestre de música.
Cena XVI
Frontino, disfarçado, anuncia a chegada do Senhor Cromático, mestre de música bolonhês que vem substituir o Senhor Semi-Colcheia e que mais não é do que Armidoro disfarçado.
Cena XVII
Enquanto Frontino tenta manter Basílio e o Conde distraídos, Armidoro canta em dueto com Giulietta. O Conde e Basílio não resistem a mostrar os seus dotes canoros. Armidoro e Frontino acabam por se denunciar. Basílio expulsa-os de novo. Armidoro saca de duas pistolas e jura que Giulietta será sua. Basílio fecha Giulietta e Bettina no quarto.
Cena XVIII
Giulietta e Bettina estão à janela. Armidoro e Frontino plaeniam raptar as suas amadas. Partem em busca de uma escada. Basílio e o Conde observam tudo e antecipam-se, indo buscar também uma escada. Quando Armidoro e Frontino regressam deparam com Basílio e o Conde pendurados na escada. Sob a ameaça das pistolas de Armidoro, Basílio entrega-lhe a chave do quarto. Chegam soldados para prender o Conde, por causa das dívidas. O Conde foge.
Acto III
Cena I
Basílio paga as dívidas do Conde e mantém os planos de um duplo matrimónio, mas Armidoro tem mais truques na manga.
Cena II
Giulietta suplica a Armidoro que parta para não ser preso. Armidoro tranquiliza-a e promete nunca a deixar.
Cena III
Basílio e o Conde chegam com soldados para prender Armidoro. Basílio anuncia que já chamou o Notário.
Cena IV
O Conde participa a Eugénia que os casamentos se irão realizar nessa noite. A Condessa aceita com relutância.
Cena V – Final
Armidoro faz a sua entrada brandindo uma espada. O Conde esconde-se com medo. Frontino entra disfarçado de Notário. Basílio traz os soldados e Armidoro esconde-se. Frontino preenche os contratos de casamento, escrevendo o nome de Armidoro em vez do Conde. Basílio assina o contrato e Armidoro apresenta-se na sua verdadeira identidade. Basílio acaba por aceitar o facto consumado e pede desculpa ao Conde, que se conforma. Basílio casa com Eugénia e todos ficam felizes.
2 Fl | 2 Ob | 2 Cnt | Fg | Tpt | Vln | Vla | Vc | Cb | Cemb
Partituras: Biblioteca do Palácio Nacional da Ajuda
A ópera L’amore industrioso foi estreada no Real Teatro da Ajuda a 31 de Março de 1769, para assinalar o da rainha D. Mariana Vitória, mulher de D. José, com uma encenação ambiciosa que contou com uma 75 figurantes (vários deles recrutados entre os soldados da guarda do palácio). A ópera foi recebida com entusiasmo e repetida dez vezes no ano da sua estreia¹. O êxito da obra terá sido consequência de um libreto divertido e cativante, repleto de intrigas e enganos, disfarces e caricaturas de diferentes classes sociais, às quais se junta, claro, a temática amorosa. A música de João de Sousa Carvalho, que também terá convencido o público, representa a emergência do estilo galante e é rica em momentos concertantes, que libertam a estrutura da ópera da mais rígida alternância entre recitativo e ária.
L’amore industrioso voltou aos palcos em 1943, no Teatro de São Carlos, a propósito da comemoração dos 150 anos do Teatro, tendo a partitura contado com a revisão do maestro Ivo Cruz. Para além de uma estreia moderna, esta apresentação é também a primeira vez que se ressuscitou uma ópera portuguesa antiga. A ópera voltaria a ser ouvida em 1967, novamente no Teatro de São Carlos, dirigida por Filipe de Sousa². Voltou à cena em 1980 e, mais recentemente, em 2001, numa produção do Estúdio de Ópera da Casa da Música do Porto³.
Data: 1769
Local: Real Teatro da Ajuda, Lisboa
Elenco: Giovanni Leonardi, Giovanni Baptista Vasques, Giuseppe Orti, Luigi Torriani, Giuseppe Romanini, Francesco Cavalli e Lorenzo Giorgetti