Libretista: António Correia e Ernesto Pinto de Almeida
Libreto baseado no romance O arco de Sant’Ana de Almeida Garrett
Drama lírico em quatro actos
Data: 1867
Língua: Italiano ( tradução de Francesco Tagliapietra)
Grande formato
Aninhas: soprano
Vasco: tenor
D. Afonso: barítono
Guiomar: mezzo-soprano
D. Pedro: baixo
Guterres: barítono
Pêro Cão: baixo
Coro
«Os eventos ocorrem no Porto durante o reinado de Pedro I no século XIV. A acção inicia-se de noite, numa ruela próxima do Arco de Sant’Ana, com o rapto de Aninhas a mando do bispo. Vasco, impotente, presencia o sucedido. A cena muda para uma taberna fora dos muros da cidade, e, no meio de uma rude tempestade, surge a Bruxa de Gaia. É lá que Vasco se vai refugiar. Num longo diálogo, Guiomar faz-lhe a revelação da sua maternidade, explica-lhe que o rei tem conhecimento dos abusos do bispo e incita-o a chefiar uma rebelião. O jovem, porém, como protegido do prelado, hesita. Mas, eis que chega o próprio rei e Vasco, já mais confiante, lhe pede que liberte a cidade. Num pequeno terceto, as três personagens fazem a apologia da liberdade e do amor entre um rei e o seu povo. Aninhas está só e prisioneira num dos cárceres no paço episcopal, mas é consolada pelo arcediago Paio Guterres. Na tasca, em Gaia, reúnem-se Vasco e outros habitantes da cidade. Guiomar incita-os de novo à rebelião e todos bebem e brindam à conquista da liberdade. O rei entra no final, a tempo de manifestar a sua vontade de vergar o tirano. Paralelamente, no palácio do bispo, este janta com a sua entourage e celebra a nova conquista feminina. Vasco chega e mostra o seu desconforto. O bispo pressente que algo de estranho se passa e questiona-se sobre se terá o jovem descoberto a sua origem. O bispo encontra-se a sós com Aninhas e tenta seduzi-la, mas é impedido por Guterres. Companheiro de juventude de D. Afonso, o arcediago tenta chamá-lo à razão e o bispo finge anuir. Quando os dois saem, Aninhas cai junto da cruz. É neste estado de prostração que será encontrada por Guiomar e Vasco que, entretanto, tinham conseguido infiltrar-se no paço. Guiomar promete libertá-la. No Largo da Sé, juntam-se o povo e os habitantes das imediações do Arco de Sant’Ana, armados de caldeiras, martelos e outros utensílios. Vasco assume o papel de chefe da revolta. No interior da catedral o bispo está reunido com todo o seu cabido, o povo e os caldeireiros ocupam a vasta nave do templo. Numa última tentativa, Guterres tenta chamar o bispo ao cumprimento do seu dever de pastor, mas D. Afonso ordena que o prendam. Nesse momento, o povo avança e tem início a verdadeira revolta. Esta será suspensa pela voz autoritária do rei que destitui o bispo. Guiomar revela então a Vasco quem é o seu pai. O bispo confessa a violação de Ester, no passado, e diz merecer a morte. O rei ordena-lhe, porém, que viva para espiar as suas culpas.»¹
Orquestra
Partitura: Biblioteca Nacional de Portugal
Cerca de duas semanas após a estreia da sua primeira ópera, Beatrice di Portugallo (1863), Francisco de Sá Noronha expressou vontade de compor uma nova obra dramática sobre um outro texto de Almeida Garrett, O arco de Sant’Anna, em homenagem aos portuenses². A ópera em causa seria finalmente apresentada quase quatro anos depois, a 5 de Janeiro de 1867, no Teatro de São João. De acordo com Luísa Cymbron,
«o burburinho foi grande e tantos os pedidos de bilhetes que na primeira récita já se faziam reservas para a segunda e terceira. Mas as condições em que foi posta em cena não poderiam ter sido piores. O crítico do Braz Tisana referia justamente a dificuldade sentida para avaliar a obra pois, por doença do baixo Giovanni Battista Cornago, o papel do rei tinha sido reduzido ao mínimo, sendo eliminada uma boa parte das cenas do 1º e 2º actos. Como se isso não bastasse, os outros artistas também não estavam à vontade nos seus papéis. Mesmo assim, alguns números haviam agradado e o 4º acto, no dizer do jornal, produzia um belo efeito³.»
Embora tivesse sido prejudicada por todos estes problemas, a obra de Sá Noronha conseguiu convencer e, um ano depois, foi apresentada ao público da capital portuguesa, no Teatro Nacional de São Carlos, e conseguiu alcançar um «sucesso retumbante»⁴. Esta recepção calorosa foi, em parte, consequência de um sentimento patriótico que se alastrou a várias vozes da crítica e contribuiu para a identificação de Sá Noronha como exemplo de compositor nacional⁵.
Data: 1867
Local: Teatro de São João, Porto
Elenco: Bagagiolo, Massini, Locatelli, Bulterini, Reduzzi e Mendioroz⁶