Serrana

1899

Descrição

Compositor:

Libretista: Henrique Lopes de Mendonça
Libreto baseado na novela Como ela amava de Camilo Castelo Branco
Drama lírico em 3 actos
Data: 1899
Língua: Português (estreia em italiano, versão de Cesar Féreal)
Grande formato

Personagens

Zabel: soprano
Pedro: tenor
Marcello: barítono
Nabor: baixo
André: tenor
Um pastor: tenor
Manuel: baixo
Coro

Sinopse

Acto I

A acção tem lugar em 1820, na pequena aldeia da Malhada, situada na Serra da Estrela. Os homens discutem acaloradamente antigas rivalidades entre aldeias, reavivadas agora que Pedro, da aldeia de Alfatema e  primeiro amor de Zabel (a Serrana), tinha jurado arruinar o arraial que iria ser realizado nesse dia por ocasião da festa de S. Silvestre, padroeiro da Malhada. A revolta de Pedro fora originada pela notícia de que Marcelo, actual companheiro de Zabel, impelido por um enorme ciúme e  pelo desejo de aumentar a  sua fortuna, havia decidido emigrar para o Brasil levando consigo a  rapariga. Apesar dos apelos à calma por parte do ancião Nabor, Marcelo consegue convencer um grupo de camponeses a, pela força, impedirem Pedro e  os companheiros de realizar os seus intentos. Na tentativa de acalmar os ânimos, Nabor oferece a Marcelo um copo de vinho e este entoa a canção dionisíaca «Eva lá no paraíso». Aproxima-se entretanto um grupo de cantadeiras, encabeçadas por Zabel, que, a pedido de todos, participa junto com André na cantiga ao desafio «Chamam-me Rosa nos Montes». Surgem então os camponeses da aldeia rival de Alfatema, liderados por Pedro. Marcelo e  os seus dirigem-se à ponte que separa as duas aldeias, enquanto Pedro, que se aproxima, vai desafiando Marcelo. Os dois rivais encontram-se frente a frente de armas apontadas quando Zabel intervém, colocando-se entre os dois homens. Com palavras doces consegue acalmar Marcelo, não deixando de, em segredo, marcar um encontro com Pedro para essa noite. Entretanto, a  luta recomeça, mais violenta, sendo agora interrompida por Nabor, que separa os grupos rivais. Os sinos chamam para a procissão e todos entoam um hino de louvor ao Santo Padroeiro.

 

Acto II

À noite, no interior da casa de Marcelo, Zabel e as fiandeiras entregam-se aos seus afazeres enquanto uma tempestade se começa a formar na Serra. Assustadas pela borrasca, as fiandeiras partem deixando Zabel só. Esta interroga-se sobre os seus sentimentos relativamente a Pedro quando este aparece. A rapariga corre para os seus braços, confessando-lhe o seu amor, e lamentando o  momento em que se deixou seduzir pela riqueza de Marcelo. Os dois decidem fugir e viver longe daquele sítio quando se ouve ao longe a  voz de Marcelo. Zabel apressa-se a  guardar o ouro na sua trouxa e bolsos, admoestada por Pedro que lhe diz não haver tempo para tal. Ao fugir pela janela, para não ser surpreendido por Marcelo, Pedro bate com a cabeça numa rocha, o que lhe causará a morte. Embriagado, Marcelo força a porta e entra em casa, tentando violar Zabel que ameaçando-o com uma faca lhe consegue escapar.

 

Acto III

Pela manhã, Nabor encontra o  corpo de Pedro. Consternado, sepulta-o próximo de uma gruta, colocando no local uma tosca cruz de madeira. o ancião interroga os pastores sobre o sucedido, mas estes nada lhe sabem dizer. Dilacerado por uma profunda tristeza, Nabor entoa um Padre Nosso. Para espanto geral, Zabel aparece sobre os penedos, de aspecto demente não reconhecendo Nabor que a ampara e conforta e recorda os momentos felizes em que vivia com Pedro. Perante o horror de Nabor e Zabel, Marcelo chega de arma em punho pronto a matar a rapariga, que acusa de adultério e de furto. No entanto, num breve momento de arrependimento, pede a Zabel para reconsiderar, dizendo-lhe que ainda a  ama. Mas a  Serrana, com ódio, lança-lhe aos pés o  cordão de ouro gritando: «tenho-te asco». Tentando evitar o pior, Nabor tenta proteger a rapariga, mas Marcelo afasta-o violentamente e  dispara. Mortalmente ferida, Zabel arrasta-se até junto do túmulo de Pedro, beija a terra e morre. Reconhecendo o  crime que tinha cometido, Marcelo foge horrorizado.1

Instrumentação

Fl | Ob | Fg | 2 Cl | Tpt |  2 Hn | Perc | Vln | Vla | Vc | Cb2
Partitura: Biblioteca Nacional de Portugal

Sobre a Obra

Apesar do libreto ter sido escrito em português, com base na novela Como ela amava de Camilo Castelo Branco, Serrana foi estreada no Teatro Nacional de São Carlos, em 13 de Março de 1899, na sua versão em italiano, como era hábito nesse teatro ao longo do século XIX. Apenas uma década depois da estreia, foi a ópera levada a cena com o texto português, no Teatro Trindade. Em todo o caso, Alfredo Kiel menciona «menciona Serrana como a primeira ópera a ser impressa com texto em português e os 90 subscritores que financiaram a edição [da partitura para canto e piano datada de 1899] referem-na como «primeira opera moderna que inicia a «Vulgarização da Musica Portugueza»3

Serrana tornou-se a ópera portuguesa oitocentista mais cantada e tanto a língua como a temática e a utilização de excertos de melodias populares contribuíram para que passasse a ser interpretada como símbolo de uma ópera nacional4. Entre a sua estreia e 1979, Serrana surgiu em nove temporadas do São Carlos, em quatro temporadas do Coliseu dos Recreios, no teatro de São João do Porto (1901), no já referido Teatro Trindade (1909), numa produção da Companhia Portuguesa de Ópera nos anos sessenta e no Teatro Rivoli do Porto (1979)5.

Estreia

Data: 1899
Local: Teatro de São Carlos, Lisboa
Elenco: Eva Tetrazzini, C. Cartica, Mario Ancona, G. De Grazia, C. Ragni e Mugnoz Degrain e Coro e Orquestra do Teatro de São Carlos

Partituras & Mais Informações

Referências

  1. Luís Raimundo, «Para uma leitura dramatúrgica e estilística de Serrana de Alfredo Keil,» Revista Portuguesa de Musicologia, no. 10 (2000): 232-233. 
  2. Partitura vocal, M.P. 218 A, acedido a 21 Janeiro, 2026, https://purl.pt/163; Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça, Serrana, musica di Alfredo Keil. Museu Nacional da Música, MM-AK-Cx.110-001-3.
  3. Raimundo, «Para uma leitura dramatúrgica e estilística de Serrana de Alfredo Keil,» 229.
  4. Raimundo, «Para uma leitura dramatúrgica e estilística de Serrana de Alfredo Keil,» 274.
  5. Raimundo, «Para uma leitura dramatúrgica e estilística de Serrana de Alfredo Keil» 229-230.