Trilogia das Barcas

1970

Descrição

Compositor:

Libretista: Maria José Falcão Trigoso
Libreto a partir dos Autos de Gil Vicente
Ópera em 2 actos
Data: 1970
Língua: Português e Castelhano
Duração: 80 minutos
Grande formato

 

Personagens

Prólogo: actor
Diabo: baixo
Companheiro do Diabo: barítono
Fidalgo: tenor
Anjo: soprano
Onzeneiro e Imperador: barítono
Parvo e Bisco: tenor
Sapateiro e Duque: barítono
Frade e Conde: tenor
Florença e Moça: soprano
Brígida Vaz e Marta Gil: mezzo-soprano
Corregedor, Lavrador e Rei: baixo
Procurador e Papa: barítono
Enforcado e Arcebispo: barítono
Menino: soprano (criança)
Morte: mezzo-soprano
Coro

Sinopse

À beira de um rio sem tempo nem geografia, para lá da vida terrena, chegam as almas acabadas de morrer. Diante delas, duas barcas aguardam: numa, o Anjo; na outra, o Diabo. É neste espaço suspenso que se desenrola A Trilogia das Barcas. O primeiro acto corresponde ao Auto da Barca do Inferno (primeiro acto), o segundo é composto pelo Auto da Barca do Purgatório e o Auto da Barca da Glória.


Uma a uma, as personagens-tipo vicentinas apresentam-se para o julgamento final. Do Parvo ingénuo ao Papa poderoso, passando por figuras do povo, do clero e da nobreza, desfila um retrato mordaz da sociedade, em que ninguém escapa ao escrutínio moral, à sátira e ao sarcasmo. À medida que o destino de cada alma se torna irreversível, ora condenadas eternamente ao inferno, ao purgatório ou ao paraíso, o drama individual dá lugar a uma reflexão colectiva sobre justiça e a forma de viver de cada um. No desfecho, a terceira parte da obra conserva o uso da língua castelhana, correspondendo ao idioma original do Auto da Barca da Glória.

Instrumentação

2 Fl | 2 Ob | 2 Cl | 2 Fg | 3 Hn | 2 Tpt | 2 Tbn | 4 Perc | Hp | Cel | Cemb| 12 Vln | 4 Va | 4 Vc | 3 Cb

Sobre a Obra

Estreada em 1970, a Trilogia das Barcas resulta de uma encomenda do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian, ainda no rescaldo das comemorações dos 500 anos do dramaturgo Gil Vicente, celebrados em 1965. Dirigida pelo maestro italiano Gianfranco Rivoli, com encenação do francês Jacques Luccioni, a ópera de Joly Braga Santos foi a primeira obra a ser interpretada no XIV Festival de Música Gulbenkian, no dia 8 de Maio, mobilizando grande atenção do meio artístico nacional e da elite política. A crítica da época refere a presença do Presidente da República, Américo Tomás, e da sua família.


«Os versos de Gil Vicente, pela riqueza do seu vocabulário, pelo ritmo e sonoridade da linguagem, podem determinar um estilo de música próprio», escreveu o compositor que procurava em Gil Vicente, depois da experiência com Garrett, uma forma de resolver o problema da ópera contemporânea, deixando para trás as «experiências musico-teatrais do expressionismo e do impressionismo, que não conduziram a qualquer saída para o futuro»¹.
A partitura reflecte a escrita de um compositor maduro, no auge das suas capacidades criativas e expressivas, capaz de uma síntese das preocupações estéticas, normalmente divididas em dois períodos, que atravessam a sua obra. E, de facto, Braga Santos viria a considerar a Trilogia das Barcas como a sua composição mais importante.


Além de um elevado número de solistas, e do efectivo orquestral (que teve de ser reajustado para uma orquestra de câmara), a obra requer dois coros, um integrado no fosso orquestral, outro colocado ora fora de cena, ora no próprio espaço cénico, assumindo ambos um papel determinante enquanto instância de comentário e amplificação do drama. Já com a ópera em fase de ensaios, o compositor decidiu acrescentar um prólogo de música concreta: uma introdução em fita-magnética, com cerca de quatro minutos de duração, construída a partir da manipulação de materiais sonoros de origem orquestral.


Braga Santos substituiria este prólogo por uma abertura orquestral, quando a obra foi apresentada pela primeira vez no Teatro Nacional de São Carlos, em 1979, sob a sua batuta e com encenação de Paolo Trevisi. Em 1988, a obra voltaria a ser reposta. E em 2024, ano em que se celebrou o centenário do nascimento de Braga Santos, a obra subiu novamente ao palco numa versão semi-encenada, sob a direcção cénica de Luca Aprea e direcção orquestral de José Eduardo Gomes.  

Estreia

Data: 1970
Local: Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
Encomenda: Fundação Calouste Gulbenkian
Encenação: Jacques Luccioni
Direcção musical: Gianfranco Rivoli
Elenco: João Perry, Nicola Rossi-Lemeni, Hugo Casaes, Giorgio Grimaldi, Maria Oran, Gianni Maffeo, Pier Francesco Poli, Otello Borgonovo, Fernando Serafim, Ana Lagoa, Karen Mesavage, Álvaro Mata, Teodoro Rovetta, Mário Mateus, Diogo Freitas Branco Paes, Carmen Gonzalez, Coro Gulbenkian e Orquestra de Câmara Gulbenkian

Partituras & Mais Informações

Referências

  1. Edward Ayres de Abreu, «Os “autos com barcas” de Gil Vicente enquanto ópera — Análise de propriedades significantes nos Auto da barca do inferno (1944) e Auto da barca da glória (1970) de Ruy Coelho e na Trilogia das barcas (1969) de Joly Braga Santos», Tese de Doutoramento em Ciências Musicais — Ciências Musicais Históricas (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2022): 93.